Glória manchada de sangue

Superficial e caricata, a encenação de Macbeth não está à altura do potencial de Gabriel Villela

O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2012 | 03h10

Em meio aos seus crimes, Macbeth, que matou Duncan, o rei da Escócia, comenta: "De tal modo estou mergulhado no sangue, que, se não for mais adiante, a volta será tão difícil quanto a travessia". A frase do homem que busca o trono sobre cadáveres é o marco sem retorno de qualquer encenação da peça. Se a fala do personagem, dessa metade para o fim do enredo, não causar o impacto arquitetado por William Shakespeare, o espetáculo terá sido apenas uma tentativa. O essencial não aconteceu.

Há bibliotecas sobre o escritor que, desde o século 16, é também personagem de si próprio, tantas são as teorias sobre seu poder de registrar épocas conturbadas e delas retirar reflexões geniais sobre história, filosofia, religião, poesia e o que um dia seria a psicanálise. Realmente um assombro, considerando-se seus 52 anos de vida (1564-1616), dos quais menos de 25 como artista.

Numa produção dividida entre comédia, fantasias e tragédias, são as últimas que mais impressionam pela força verbal e senso político. Macbeth encarna um poder no "trono manchado de sangue", título que Akira Kurosawa deu à sua versão cinematográfica. O ensaísta polonês Jan Kott (1914-2001) observa em seu estudo Shakespeare Nosso Contemporâneo que a peça não mostra uma mera agitação social, mas um pesadelo. Se os jogos de interesses humanos são contraditórios, curiosos ou graves, eles se tornam horríveis quando brotam da deformada vontade pessoal.

Diz Kott: "A história em Macbeth carece de transparência, como um pesadelo. Uma vez acionado, todos nós estamos mergulhados nele até o pescoço". Essa opinião tem interesse adicional ao vir de um intelectual que viveu o contraditório de sua conciliação inicial com regimes comunistas na Polônia e na URSS, antes de se afastar das tiranias. Para ele, o enredo está reduzido "a uma única divisão: entre os que matam e os que são mortos".

A obra é tão complexa que induz especialistas a posições diferentes. O protestante Harold Bloom acentua a culpa e o ex-comunista Jan Kott, o assassinato, o sangue, provavelmente pensando no regime de Josef Stalin fuzilando ex-companheiros.

Faltam as dimensões mencionadas por Bloon e Kott à atual encenação de Macbeth. Shakespeare não precisa ser um monumento, desde que se ofereçam alternativas. O diretor Gabriel Villela consagrou-se e trouxe visibilidade internacional ao grupo O Galpão, de Minas Gerais, ao realizar, em 1992, uma linda versão circense de Romeu e Julieta, apresentada na Praça da Sé de São Paulo, em mostras e festivais de Montevidéu a Londres.

Naquele instante houve inventividade com Shakespeare, agora mostrado na superfície da trama e com momentos caricatos. A opção de alguém ler em cena partes do original para condensar a representação contém riscos, mas é compreensível. O problema é o narrador, vagamente caracterizado como Shakespeare, surgir com aparatoso guarda-sol vermelho e gestos afetados como que a ironizar a própria função. Essa mesma afetação amaneirada vai à gratuidade quando as célebres bruxas aparecem entre trejeitos e risadinhas. Na tradição universal, feiticeiras, videntes, rezadeiras possuem um peso dramático imemorial.

Por outro lado, a sobrecarga de referências orientais e à arte popular brasileira tende a perturbar o essencial. O Rei Duncan está mais para figura de baralho; vale o que se quiser. Em compensação, a ousadia funciona ao apresentar um ator como Lady Macbeth na tradição elisabetana e a oriental de teatro (não há atrizes, só homens); aí Villela está à altura de suas encenações.

O emaranhado de maneirismos visuais e interpretativos faz Macbeth chegar a um ponto que é difícil voltar ao cerne da obra. Volta parcialmente com a intensidade sóbria de Marcello Antony (Macbeth), a composição de Claudio Fontana (Lady Macbeth), a sólida presença de Helio Cícero acima da roupagem e marcações acanhadas. Por fim, na veemência de Marco Antonio Pâmio. Ele deixa claro que estamos diante de uma tragédia, mesmo que desta vez a força simbólica das espadas tenha sido trocada por simples varetas de metal.

Crítica: Jefferson del Rios

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