Globo pode fazer DVD de "TV Pirata"

Regina Casé se consagrou como uma humorista de peso na pele de personagens como o da empregada doméstica Dinalda. Balançando as mãos freneticamente, Débora Bloch (então com 25 anos) arrancava gargalhadas do espectador como a repórter Adelaide. Interpretando Valter Vale, apresentador do quadro Divórcio na TV, o experiente Marco Nanini viu sua carreira televisiva ganhar novo fôlego aos 40 anos. Cláudia Raia descobriu um potencial cômico que passava desapercebido nas novelas. Quem sente saudades das esquetes do TV Pirata - que foi ao ar nas noites de terça da Globo de março de 1988 até julho de 1990 -, pode começar a alimentar um fio de esperança em rever o humorístico. Hoje, a Globo Marcas promove uma reunião para decidir se lança um DVD com uma compilação de melhores momentos do programa. Na emissora, no entanto, ninguém confirma nem desmente a intenção de lançar o produto e a frase padrão para o assunto é: "não está nada confirmado ainda." Se a decisão for pelo lançamento, uma legião de órfãos da pirataria poderá relembrar os bons tempos do programa. Já os telespectadores mais jovens - que não assistiram TV Pirata -, poderão conferir de onde vieram muitas das idéias que vão ao ar em Casseta & Planeta e Os Normais. Em um período em que o humor na tevê dependia de veteranos como Chico Anysio, Agildo Ribeiro, Jô Soares, Carlos Alberto da Nóbrega e Os Trapalhões, a Globo inaugurou um novo jeito de contar piada na telinha. Sob a batuta de um promissor diretor de nome Guel Arraes - hoje, um colecionador de sucessos televisivos -, a emissora montou uma verdadeira seleção do bom humor. A equipe de 14 roteiristas, liderada por Cláudio Paiva, trazia, entre outros, a atriz Patrícia Travassos, os dramaturgos Mauro Rasi e Vicente Pereira, e o pessoal da revista Casseta Popular - que mais tarde se juntou com a turma do jornal de humor Planeta Diário, formando o Casseta & Planeta. O elenco de atores era estelar: além dos já citados, protagonizavam as esquetes Denise Fraga, Cristina Pereira, Guilherme Karan, Diogo Vilela, Luis Fernando Guimarães, Ney Latorraca, Pedro Paulo Rangel e Louise Cardoso. Na bagagem, eles traziam a experiência de já ter trabalhado juntos na tevê ou no teatro. Nanini e Latorraca, por exemplo, estavam em cartaz com O Mistério de Irma Vap no mesmo período em que TV Pirata estreou. Já Guimarães, Travassos e Casé eram alguns dos integrantes da influente trupe Asdrúbal Trouxe o Trombone, que espalhou despojamento no teatro dos anos 70. O entrosamento entre os atores e a eficácia dos quadros garantiram uma boa audiência, que registrava uma média de 40 pontos no ibope - tanto Casseta & Planeta quanto A Grande Família anotam média entre 32 e 33 atualmente, na Globo. "Para mim, aquilo foi um encontro muito raro de atores e roteiristas de diferentes gerações", lembra Diogo Vilela. "É difícil tantas pessoas terem a disponibilidade para trabalhar em um mesmo momento. Foi um encontro muito legal e acho ótimo que exista essa possibilidade de lançar um DVD, pois todo mundo sempre pergunta sobre TV Pirata. De certa forma, foi o programa que revelou meu trabalho para o público de televisão." Uma das especialidades do TV Pirata, que também aparece nos quadros do Casseta & Planeta, era a sátira a comerciais e programas de tevê. Um dos personagens mais populares de Guilherme Karan, por exemplo, era o apresentador de TV Macho, Zeca Bordoada (que fazia a barba com serra elétrica) - uma ironia clara, direcionada ao programa feminino TV Mulher. A paródia à novela Roda de Fogo ganhava nome de Fogo no Rabo e assim por diante. Com o fim do programa, a maioria dos atores e roteiristas e o diretor Guel Arraes viram sua credibilidade crescer na Globo. Regina Casé e Luis Fernando Guimarães estrearam em abril de 1991 o Programa Legal, com direção de Arraes e roteiro de Hubert - um dos integrantes do Casseta & Planeta, que estreou em 1992.

Agencia Estado,

03 de fevereiro de 2003 | 14h35

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