Globo abre 2001 com pacote de filmes nacionais

Faz tempo, mas nunca é tarde para lembrar. Quando Benedito Ruy Barbosa humilhava a Globo com os índices de sua novela Pantanal, na extinta Manchete, a toda-poderosa só conseguiu recuperar o público quando programou um festival de filmes nacionais. O caso foi lembrado pela produtora Assunção Hernandez, durante a realização do 3.º Congresso do Cinema Brasileiro, em meados do ano passado, em Porto Alegre, quando o assunto era justamente a relação entre cinema e TV no País. É uma relação complicada, todo mundo sabe. É raro as emissoras investirem na produção, com exceção da Cultura. E preferem os filmes estrangeiros porque são mais baratos. Mas é mentira dizer que o cinema brasileiro não tem público, quando passa na TV.Volta e meia a Globo se lembra disso e faz um afago na classe cinematográfica do País, promovendo um festival de filmes brasileiros. É o que volta a ocorrer esta semana. Para abrir o ano (e o milênio), a emissora exibe à noite, em horário nobre, sete produções nacionais. Começa amanhã (1.º) com Zoando na TV e prossegue, pela ordem, com Buena Sorte, For All, Amor & Cia., O Corpo, Bela Donna e Orfeu. A iniciativa ocorre no momento em que a emissora, por meio da Globo Filmes, investe no cinema, beneficiando-se dos mecanismos de captação criados pelo governo para incentivar a produção. Com O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, versão reduzida e kinescopada da minissérie que o próprio Arraes adaptou da peça de Ariano Suassuna, a Globo Filmes ultrapassou 2 milhões de espectadores e, com Xuxa Requebra, da estrela também global, apresenta os melhores números de freqüência desde a retomada da produção, no começo dos anos 90, após a política de terra arrasada para a cultura em geral (e o cinema em particular) da nefasta era Collor.Zoando na TV também recorre a outra loira global Angélica. É em torno dela que se constrói a fantasia criada por José Alvarenga Jr., diretor de alguns filmes dos Trapalhões (quando Renato Aragão, o Didi, ainda batia recordes de público). Se você viu A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, um dos filmes emblemáticos da pós-modernidade dos anos 80, não terá dificuldade para identificar o ponto de partida de Alvarenga Jr. No filme de Allen, a garçonete Cecília, interpretada por Mia Farrow, recompensava-se de uma vida medíocre e cheia de dificuldade, durante a depressão econômica dos anos 30, entrando na tela do cinema para viver movimentadas aventuras ao lado do seu herói preferido que, lá pelas tantas, vinha para o lado de cá, conhecer os percalços da existência terrena.Criou-se a expressão "síndrome de Cecília", da qual sofre a Angélica de Zoando na TV. Ela e o namorado (Márcio Garcia) são sugados para dentro da TV e se envolvem nos mais absurdos enredos de séries e novelas enquanto tentam achar o caminho para casa. Não falta um vilão, Miguel Falabella, e uma bad girl tão sexy que é criada por Daniele Winitts, em oposição à virginal Angélica. Parece interessante e potencialmente é, ou seria, já que o diretor põe tudo a perder, dando tratamento medíocre a um roteiro que também desperdiça o potencial da trama.Boiadeiros - As coisas não melhoram muito na terça-feira com Buena Sorte, o filme de Tânia Lamarca sobre o universo boiadeiro de Barretos. De novo, o ponto de partida parece interessante um boiadeiro volta americanizado dos Estados Unidos e insere-se num universo cheio de referências à mitologia do western, não faltando um herói mascarado que luta para estabelecer a lei e a ordem, como os mocinhos do Velho Oeste. O problema é que o filme, em vez de ironizar, copia (mal) os clichês desse cinema alienado. O público captou e desinteressou-se da "mensagem". O filme com Marcos Palmeira não foi nem de longe o sucesso sonhado pela diretora, que agora se prepara para lançar Tainá, como sua proposta de filme de verão.De novo as relações entre os EUA e o Brasil compõem o foco do interesse de For All. O filme de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz passa-se numa base americana em Natal, durante a 2.ª Guerra, tratando do efeito que a presença dos soldados provoca nas moçoilas locais e de que forma o poderio dos EUA, em luta contra o nazifascismo, se reflete nas intrigas políticas brasileiras. Betty Faria e José Wilker lideram o elenco que também tem Paulo Gorgulho, Edson Celulari, Diogo Vilela e Cláudio Mamberti. O filme é meio subserviente a Hollywood, mas não é tão ruim como os críticos andaram escrevendo na época do lançamento. Tem lá seus momentos de delicadeza.O mesmo pode-se dizer de Amor & Cia., mas a verdade é que Helvécio Ratton desperdiça o cuidado plástico e cenográfico da sua versão de um triângulo amoroso criado pelo escritor Eça de Queirós. O filme com Marco Nanini, Patricia Pillar e Alexandre Borges é um produto híbrido que não consegue achar um tom e não diverte nem emociona, apesar do empenho dos atores. O Corpo, baseado em Clarice Lispector, pertence a uma época em que o diretor José Antônio Garcia era mais exigente consigo mesmo. Deixou de sê-lo ao dirigir o filme "de" Maria Zilda Bethlem Minha Vida em Suas Mãos, mas isso não deve desanimar o público de ver a obra com Antônio Fagundes, Marieta Severo e Cláudia Gimenez.Bela Donna, de Fábio Barreto, trata da paixão que a gringa Natasha Henstridge provoca no pescador Eduardo Moscovis, numa praia do Nordeste. Falso como uma nota de três dólares, o filme investe em belas paisagens para tentar compensar a frouxidão da narrativa. Finalmente, Orfeu. Cacá Diegues já mostrou na Globo, antes dos cinemas, o filme Dias Melhores Virão. Ele adaptou a peça de Vinícius de Morais sinceramente convencido de que poderia fazer melhor que o francês Marcel Camus. Com o Orfeu original, no fim dos anos 50, Camus ganhou a Palma de Ouro em Cannes, mas foi acusado de falsificação sociológica pela turma do cinema novo. Acusação procedente, o que não quer dizer que aquele Orfeu não tivesse seu charme (mesmo falso). O de Diegues não é tão melhor, mas possui qualidades. E a trilha funkeira, mistura de Caetano com Gabriel o Pensador, é festa para os ouvidos.

Agencia Estado,

31 de dezembro de 2000 | 16h18

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