Glauco Velásquez resgatado

Projeto dos irmãos Brucoli lustra a obra do compositor brasileiro que só não foi mais longe porque morreu cedo demais

JOÃO MARCOS COELHO - ESPECIAL PARA O ESTADO,

10 de dezembro de 2012 | 02h05

Compositor não fala sobre outro compositor que considera importante. Se é também músico, toca sua obra; cria em torno dela e trata de divulgá-la por onde quer que vá, num gesto de desprendida devoção raro num ninho onde em geral os egos superinflados só enxergam os próprios umbigos. Pois foi exatamente isso que aconteceu entre o compositor francês Darius Milhaud e Glauco Velásquez, mesmo que o brasileiro tivesse morrido com apenas 30 anos em 1914. Quando desembarcou no Rio de Janeiro em fevereiro de 1917, como secretário do embaixador Paul Claudel, Milhaud comprovou o acerto das observações que ouviu sobre o brasileiro, ainda em Paris, de Xavier Leroux, seu professor no Conservatório de Paris, e do maestro André Messager.

Examinou os manuscritos de várias obras de Velásquez, incluindo o trio para piano e cordas no. 4, inacabado, que se propôs a concluir. Gostou particularmente do trio no. 2, até hoje considerado obra-prima por quem o conhece bem. Dois meses depois, em abril, fez uma conferência sobre Velásquez e tocou com Luciano Gallet ao piano a sonata no. 2 para violino e o trio no. 2 com Alfredo Gomes ao violoncelo (a conferência foi publicada dias depois no Jornal do Commercio, e no original francês!) No ano seguinte, Milhaud apresentaria em concerto o trio no.4 por ele completado.

E o que dizia Milhaud a respeito desse compositor que morreu tão jovem? Adorou a seguinte frase de Glauco: "Eu dou às minhas obras a forma que lhes impõem os meus temas". Isso proclamava uma liberdade que nada tinha a ver com a realidade musical brasileira - e soava moderna até para os ouvidos do francês. Em suas memórias, décadas mais tarde, Milhaud não se conformava por Velásquez ainda não aparecer com destaque nas histórias da música brasileira.

Vivo fosse, Milhaud se sentiria vingado. O projeto dos irmãos Brucoli - Paulo ao piano, Fábio ao violino e Mauro ao violoncelo - resgata, praticamente um século depois da morte de Velásquez, sua justa importância, ao promover um triplo resgate: 1) uma ótima gravação dos quatro trios em áudio, tanto técnica quanto artisticamente; 2) um DVD traz o Aulus Trio interpretando a integral no palco do Teatro Municipal de São Paulo, e Carlos Mendes dirige um documentário que ouve sem pressa o maestro Lutero Rodrigues, responsável pelo restauro dos manuscritos, assim como Fábio Brucoli, o musicólogo Manoel Correa do Lago, André Cardoso, Ernani Aguiar e Alceo Bocchino, esmiuçando tanto a vida como a obra deste compositor tão mal conhecido e marginalizado, e que fez música de tamanha qualidade de invenção; e 3) a disponibilização das partituras em CD-Rom para qualquer músico interessado em Velásquez.

O AulusTrio vai mostrar o resultado tocando Velásquez amanhã, às 19 horas, no recém-inaugurado Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, na Praça das Artes. Entrada franca. E imperdível.

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