Lourenço Mutarelli/Reprodução
Lourenço Mutarelli/Reprodução

Glauco Mattoso e Férrez lançam livros para crianças

Poetas inspiram-se em suas próprias infâncias para escrever sobre tema que não lhes é comum

Maria Fernanda Rodrigues - O Estado de S. Paulo,

17 de agosto de 2012 | 20h00

Quando Glauco Mattoso era pequeno e ainda se chamava Pedro, ele não andava de bicicleta e não jogava bola com as outras crianças porque tinha que tomar cuidado com os olhos e com os óculos, que começou a usar cedo por causa de um glaucoma congênito - daí o nome que passou a adotar em 1974. Por isso, sofria bullying. Para fugir da mira dos garotos da escola, passava o tempo livre em casa lendo, estudando e atazanando Gipsyy Lee. "Eu tinha uma paixão por aquela cadelinha. Eu a mimava, assediava, tentava ter dela a mesma atenção que ela dava à minha mãe e carregava jujubas no bolso para ver se ela me adotava", lembra o escritor. "Os animais domésticos não discriminam os seres humanos e percebem quando a pessoa não pode compartilhar muito com os outros. Para ela, eu não era deficiente."

Essa lembrança toda veio à tona quando a Tordesilhas perguntou se ele não queria escrever um livro infantil. Tendo circulado entre os poetas marginais nos anos 80 e sendo autor de livros com altas doses de violência e erotismo, pensou: "O que eu teria de simples e positivo para transmitir às criança?" Só conseguiu se lembrar da bassê da sua mãe, que o acompanhou durante a infância e adolescência, nos anos 60 e 70. Por essa ser a única recordação bonita de sua vida, ele diz que a estreia agora na literatura infantil com A Predileta do Poeta é também sua despedida. As ilustrações foram feitas pelo amigo Lourenço Mutarelli, outro novato no gênero.

Para Glauco, a literatura maior é a que vem do sofrimento e quase tudo o que já escreveu se refere a reminiscências de uma infância traumática. "É nessa época que fixamos as coisas boas e ruins." Ele conta que seu trauma foi superado através de uma conduta sexual e da literatura. "Em vez de remoer os abusos que sofri, compenso com um desfrute sadomasoquista." Depois que ficou cego e passou a se considerar verdadeiramente inferiorizado, o masoquismo adquiriu uma outra dimensão. "Passei a ser um masoquista na prática mesmo, aquele que não está apenas fingindo que sofre, mas está sofrendo de verdade e tentando tirar algum proveito disso. O grande proveito mesmo foi a criatividade e a obra literária."

Na hora de escrever para criança, Glauco optou por narrar em sonetos - sua especialidade - simplificados a amizade com a cadela. Ele acredita que os enredos para este público devam ser positivos, educativos e construtivos. O seu é assim, mas não deixa de anunciar que a brincadeira acaba logo para o garoto que ainda vai se injuriar tanto com a cegueira: "Desenhada, ela perdura, se a saudade nos é dura: quer revê-la quem não vê". De acordo com o autor, é preciso ter cuidado ao falar com crianças. "Não podemos jogar na cara delas todos os problemas da humanidade. Temos que dar a chance dela se preparar um pouco, adquirir certos valores para poder resistir à carga negativa que vai ter que enfrentar", comenta.

Glauco Mattoso não é o único autor de livros adultos que está se aventurando pelo concorrido mercado de obras infantis. E não é o único a fazer isso com um texto autobiográfico. Autor de Capão Pecado e Manual Prático do Ódio, Ferréz lança O Pote Mágico (Planeta), sobre a infância de um garoto de periferia que consegue se divertir puxando uma lata amarrada a uma corda, brincando com uma pedra ou um volante de carro.

Na obra, o menino descobre que o vizinho tem um pote mágico e precisa conseguir R$ 5 para ter a chance de ver o que tem dentro dele. Como o próprio autor já fez, recolhe ferro velho na rua para vender e vai tomar conta de carro. É uma história sobre brincadeiras de um tempo passado e sobre como infância e trabalho estavam ligados. Para Ferréz, um livro tem que mostrar, mesmo que discretamente, uma lição para os leitores. Neste caso, que eles "não vão ter só algodão-doce". O autor, aliás, como seu personagem, tinha de se contentar com as raspinhas do doce.

"Não podemos iludir a criança só com o faz de conta. Tem que sonhar, tem que brincar, mas tem que saber que existe esse outro mundo." Antes de O Pote Mágico, ele lançou, em 2005, Amanhecer Esmeralda para as meninas da periferia. E por que escrever para crianças? "Estou perto dos 40 e o coração está amolecendo."

Ilustração. No livro infantil, tão importante quanto o texto é a ilustração. Se não fosse pelo convite de Glauco, Lourenço Mutarelli não teria entrado nesse universo - primeiro por não conseguir escrever para criança e depois por não ter interesse em fazê-lo. "Mas era tão insólito um livro infantil dele ilustrado por mim que eu achei legal tentar." Autor dos romances O Cheiro do Ralo e O Natimorto e de HQs, o ilustrador quis fazer algo simples porque tudo pode marcar de maneira muito forte as crianças.

"Como a do Glauco, minha infância também não foi muito inocente, muito Walt Disney, mas tentei ser o mais leve possível e imaginei como seria o Glauco pequeno brincando com essa cachorrinha de que fala tanto. Mas alguém disse que o meu cachorro tem uma cara sombria. Há coisas que a gente não consegue deixar para trás." Há mesmo. Uma parte do livro não tem a ver com Glauco. Para manter o suspense do começo do texto, Mutarelli, ainda impressionado com um vídeo que encontrou por acaso no YouTube, em que uma mulher ensina a "fazer esculturas bizarras de cachorro com bexigas", inventou a figura de um mágico que faz uso dessa bricolagem para apresentar a salsichinha, uma cena corriqueira em festas infantis, e ainda assim estranha.

Quem fez as ilustrações para a obra de Ferréz foi Rodrigo Abrahim e o trabalho também o transportou para o seu tempo de menino em Manaus. "Acredito que o livro fará isso com todos os leitores, independente da classe social e das vivências pessoais. Acho que consegui incluir uma sensibilidade própria em relação à dualidade de realidades vividas pelo protagonista", conta.

Gipsyy Lee morreu gorda e diabética aos 14 anos e nenhum dos cachorros que a família teve depois ocupou o espaço deixado por ela. Na periferia, hoje, os brinquedos são outros.

A PREDILETA DO POETA

Autor: Glauco Mattoso

Ilustrador: Lourenço Mutarelli

Editora: Tordesilhinhas

(28 págs., R$ 28)

O POTE MÁGICO

Autor: Ferréz

Ilustrador: Rodrigo Abrahim

Editora: Planeta

(48 págs., R$ 29,90)

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