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Glamour Remasterizado

Saem em DVD as novas versões de Romeu + Julieta e Moulin Rouge, irretocáveis cults pós-modernos de Baz Luhrmann, cineasta que ressuscitou o musical

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2010 | 00h00

Talvez não interesse ao leitor saber dos bastidores da entrevista, mas vale destacar que nunca foi tão difícil para o repórter do Estado falar com um entrevistado. Não que Baz Luhrmann, e muito menos ele, não estivessem dispostos a conversar pelo telefone (de Nova York, onde estava o diretor). Mas os horários não coincidiam e, quando o fizeram, a ligação caiu e não pôde ser restabelecida, coisa dos primórdios da telefonia. Enfim, o telefonema saiu. Seguia normalmente, quando caiu numa paixão comum entre o repórter e o entrevistado, Luchino Visconti. Aí, sim, a conversa, basicamente sobre a remasterização de Romeu + Julieta e Moulin Rouge, tomou outro rumo e ficou mais interessante.

Romeu + Julieta e Moulin Rouge integram a trilogia da cortina vermelha, que é recente. Por que foi preciso remasterizar esses filmes?

Remasterizar não tem o mesmo significado que restaurar. As matrizes dos filmes não estavam em estado deplorável, mas, como o próprio nome indica, remasterizar quer dizer reeditar. Consiste em melhorar a qualidade de som ou imagem de um material já existente, pode ser disco ou filme. Não quero ser aborrecido na descrição do procedimento técnico, mas se trata, na essência, de voltar a realizar o processo de mastering. Por exemplo, Moulin Rouge utilizava na trilha gravações já existentes de obras que me interessavam integrar ao processo narrativo do filme, em substituição aos diálogos. Muitas daquelas gravações foram usadas de forma direta, mas agora achamos que seria bom voltar ao estúdio para limpar as gravações dos diferentes instrumentos e vozes, nas pistas correspondentes. Basicamente, foi o que fizemos e os DVDs exibem uma qualidade sonora que considero irretocável.

Ou seja, para tranquilizar o fã dos filmes, nada foi mudado no material. É isso?

Tanto no processo de restauração como na remasterizacão podem-se proceder a mudanças no original, mas não era esse o objetivo. Posso assegurar que o filme continua exatamente igual, mas com som melhor e, talvez, cores mais vivas.

Pode-se dizer que você resgatou o velho musical e pagou por isso. Moulin Rouge provou a viabilidade do gênero, mas foi Chicago que ganhou o Oscar, depois, e o musical de Rob Marshall não é tão bom. O que você pensa disso?

Só o fato de as pessoas dizerem que ressuscitei o musical já é gratificante para mim. Quando Moulin Rouge surgiu, não apenas o musical era considerado carta fora do baralho como a própria proposta conceitual do filme, a sua artificialidade ou teatralidade, a canção pré-existente usada em substituição ao diálogo, tudo era inovador. Uma vanguarda que bebia na retaguarda. Houve gente que percebeu a intenção, estou falando de críticos, o público aprovou. Veja que a própria Nicole (Kidman) ganhou seu Oscar depois, mas foi Moulin Rouge que fez dela uma estrela e não apenas ser a ex de Tom Cruise.

Quando você esteve no Brasil para promover o filme, fui o cara que lhe disse que a cena da morte de Satine (Nicole) reproduzia o diálogo da morte de Nadia em Rocco e Seus Irmãos. Digo isso porque o clássico de Luchino Visconti é o meu filme favorito e eu sei tudo sobre ele. Lembra-se?

Ah, foi você? Viajei o mundo todo para promover o filme e nunca ninguém me fez a associação. Para mim, não foi apenas uma grande honra. Visconti foi a referência, sim, mas não acreditava que muita gente, na realidade não acreditava que alguém fosse se dar conta disso. Vamos ser práticos. Existem críticos que não possuem cultura clássica, não sabem nada. Não estou nem reclamando, só constatando. Para alguém como eu, que cresceu assistindo ao cinema clássico e que trabalha com ópera e cinema, é claro que Visconti representa o farol.

Sua releitura de Visconti é pós-moderna. Ele surgiu no neorrealismo, nada mais avesso ao seu estilo do que a artificialidade da trilogia da cortina vermelha. Escrevi um livro, Cinema - Entre a Realidade e o Artifício, no qual sua trilogia, e Moulin Rouge em especial, ocupa o capítulo mais importante. O que pensa disso?

Que gostaria muito de ler seu texto. Sério. Concordo quando me diz que o realismo de Visconti é alheio às intenções do meu cinema, mas a verdade é que o realismo virou um luxo no cinema atual, no qual os artistas trabalham tanto a linguagem, ou os efeitos, às vezes os dois, que o realismo, digamos, documentário virou uma etiqueta muito particular, aplicável a um certo tipo de filmes, apenas. Visconti é uma fonte permanente de inspiração, mas não poderia fazer filmes nem montagens de óperas como ele, e não apenas por diferenças culturais ou mesmo de classe. Afinal, ele era um aristocrata e a Austrália foi povoada pela escória da sociedade inglesa. O mundo todo mudou, o cinema também, e esses mestres não deixaram substitutos.

Mudando de assunto, você ficou decepcionado com o fracasso de público de Austrália?

De certo que sim, mas é preciso relativizar esse fracasso. O filme foi mal nos EUA, mas foi bem em diversos mercados, inclusive, até onde sei, no Brasil. A decepção foi tanto maior porque foi um filme que quis muito fazer. Um épico romântico sobre a formação da Austrália. Não existem muitos filmes assim para comparar.

Eu citaria ?E o Vento Levou e Assim Caminha a Humanidade, mas quero destacar o uso que você faz de O Mágico de Oz como o filme que inspira o garoto. Por que a tradição lhe interessa?

Me interessa como ponto de partida para pesquisas pessoais. Não me impede de trilhar meu caminho. Sou romanesco, reconheço. Gosto dessas histórias e de amores maiores que a vida. Adoro os heróis trágicos. Romeu e Julieta, Satine. O Mágico de Oz me interessa por algo mais. O mito do retorno para casa. Quem não sonha com isso? Pode parecer presunção, mas não me surpreenderia se um dia o público de todo o mundo, incluindo o norte-americano, entendesse o filme que quis fazer e Austrália virasse obra de culto. Como artista australiano, nada me deixaria mais feliz.

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