Glamour na rima

Incorporando balanço do R&B, lições de Lady Zu e Cartola, garotas renovam velho território do rap

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2012 | 03h08

Dryca Rizzo ficou à sombra dos manos do rap durante um bom tempo. Era backing do projeto Rosana Bronks, de Mano Brown, e sua voz às vezes soava em coletivos masculinos como RZO e Conexão do Morro.

"Mas estava na hora de injetar algum glamour no caos", brinca a cantora. "Se hoje tem meninas nos shows, é porque falamos de assuntos que são de mulheres. Não queremos mais só agradar ao lado masculino do rap", diz. "Engraçado, todo mundo achava que os homens não iam gostar, mas acho que pela batida e por outros elementos, tem atraído o público masculino também."

Dryca tem 26 anos e é de Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Alterna as turnês como cantora com o trabalho numa fábrica - três vezes por semana, ela desenha bijuterias numa empresa, das 7 h às 17h30. Paralelamente, estudou canto, aprendeu em discos de Aretha Franklin, Ella Fitzgerald, Whitney Houston, como conta.

"Quando eu fazia backing para o Conexão do Morro, a música era uma realidade deles. Agora é o meu disco, quero falar de coisas que eu sinto, coisas que podem inspirar outras meninas", afirma Dryca.

Até cinco anos atrás, em Curitiba, Karol Conká só tinha uma canção para abrir shows, Aqui Você Não Pode. Foi com essa música que escancarou seu caminho numa época em que as garotas "se comportavam como homens", diz. "As garotas iam as shows de rap, mas eram tão masculinizadas que se camuflavam. A primeira vez que eu fui, eu prometi: vou entrar nesse mundo do rap e mostrar como é que a mulher faz", diz Karol.

Ela, na verdade, era mais da MPB. "Adorava Milton Nascimento", confessa a menina que veio do Alto Boqueirão, em Curitiba, e foi secretária, recepcionista, assistente administrativa até ser aconselhada pelos chefes a ser artista mesmo, porque seu negócio era outro. Em 2011, seu clipe Boa Noite lhe rendeu uma indicação na categoria Aposta do VMB 2011.

A profissão de fé do rap de Karol Conká é muito explícita: "Quero fazer sempre um rap acessível a todas as classes, todas as idades, todos os estilos".

Flora Matos veio de Brasília. Filha do músico baiano Renato Matos, da banda Acarajazz, cresceu entre a capital federal e Olhos D'Água, cidade de 3 mil habitantes a 105 quilômetros da capital federal. É a quinta de sete irmãos: Jandira, Abaetê, Zé, Caetano, Julia e Davi. Nas palavras do pai, aos 12 anos a filha "já estava mulher". Ia sozinha a shows de reggae, escondida da mãe, Áurea, auxiliada por uma amiga com o dobro de sua idade. Aos 13, se apaixonou por rap num show dos Racionais.

"O grande lance é que ela não é uma mina que fica reclamando que é mina. Tem umas garotas que cantam 'eu sou mina, mas também represento', 'quero meu espaço', essas coisas. A Flora canta de igual pra igual com qualquer MC, seja o Mano Brown ou um moleque de 15 anos", disse Emicida, colega e fã de Flora.

"A gente teve várias minas na história do rap nacional, mas neste momento os ventos têm soprado a favor da Flora", disse Emicida à revista TPM, avalizando a trajetória da colega. Gravou uma música com Seu Jorge para disco do rapper Talib Kweli,

A veterana do time é Lurdez da Luz, de 31 anos, que compõe e rima há 12 anos e alterna a carreira com o papel de mãe de Roge, de 6 anos. Lurdez foi vocalista do grupo Mamelo Sound System e integrante do projeto 3naMassa, e é um exemplo de atitude e coerência para as recém-chegadas. "Bate no peito com respeito/Que eu quero ver", desafia, em sua nova canção, Levante, um "grito de guerra".

O hip-hop das novas garotas do rap não tem preconceitos nem fronteiras. Parte do R&B de Beyoncé e Destiny's Child, como confessam Karol e Dryca. Volta atrás em busca de Diana Ross e Lady Zu. Mas também assume sua porção Cartola e Elis Regina. Tem ziriguidum e tem scratch, mas principalmente apelo dançante e um jeito franco de assumir sua vaidade. "Respeito não se ganha pela roupa, mas pela atitude. As garotas se vestiam para serem aceitas pelo rap masculino. Mas é bom que se diga: não sou feminista", diz Karol Conká.

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