Glamour marcado pela violência

Passados 25 anos, Bret Easton Ellis mostra, em Suítes Imperiais, que os personagens de Abaixo de Zero apenas envelheceram, pois continuam mergulhados em promiscuidade e desilusão

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

Quando Abaixo de Zero foi publicado em 1985, seu autor, Bret Easton Ellis, logo foi nomeado porta-voz de uma geração desencontrada. Afinal, a partir de uma linguagem de videoclipe, ele retratava os meandros dos perfumados esgotos da Califórnia, descrevendo jovens incomodados, que não tinham a real dimensão da dor e cuja violência brotava espontaneamente. Com o tradicional exagero mercadológico, o livro foi explorado como O Apanhador do Campo de Centeio do fim do século, o que o tempo se encarregou de negar. Mas foi o suficiente para catapultar para a fama um jovem de 21 anos que, apesar da avalanche de críticas de especialistas, recebeu um carinho especial do público - o livro vendeu 50 mil cópias nos Estados Unidos apenas em uma temporada.

Passados 25 anos, ele voltou aos mesmos personagens e publicou Suítes Imperiais, lançado aqui pela Rocco, que edita toda sua obra no Brasil. Agora, Clay, Julian e Blair, então jovens enredados em sexo, violência e drogas, têm o dobro da idade e são profissionais bem sucedidos da indústria de entretenimento. Mas ainda não se livraram da promiscuidade, desencanto e violência. Na obra, destaca-se o minimalismo precursor da prosa de Easton Ellis, pois cada pequena célula temática entra e sai de cena com rapidez de faca: jovens cruéis, guerras conjugais, amores puramente carnais, sadismo, velhos ridículos e muitas perversões sexuais. Uma receita que voltou a depurar em outro grande sucesso, O Psicopata Americano, publicado em 1991 e que surpreende pela descrição detalhada de atos violentos.

"Suítes Imperais era para ser uma sequência de Abaixo de Zero, mas, por conta dos demônios que me cercavam, tomou outro rumo", contou o escritor ao Estado, em conversa por telefone, desde Los Angeles. Mesmo assim, o fio condutor continua o mesmo e, apesar de seus livros pingarem sexo e violência, Easton Ellis revela-se um homem polido, agradável, interessado em conversar. Um tom musicado, com altos e baixos, marca sua voz e às vezes ele se perde em digressões, mas sempre retoma o assunto. É indisfarçável, porém, sua certeza de que se trata de um escritor que se tornou referência, assunto que trata com fina ironia. Aos 47 anos, Easton Ellis voltou a viver em Los Angeles depois de uma temporada em Nova York, motivado pela saudade de colegas roteiristas e atores - ele também escreve para cinema e televisão, preparando-se, no momento, para trabalhar no roteiro de um filme, Bait, a ser dirigido por Paul Schrader, cineasta que, como ele, é obcecado por obsessões.

Quando foi lançado nos Estados Unidos, Suítes Imperiais foi divulgado como uma continuação de Abaixo de Zero, mas você contestou. Como qualifica, então, esse novo livro?

Na verdade, prefiro não qualificar minha obra. Suítes Imperiais nasceu a partir de uma urgência, foi um livro que precisei escrever em um momento particular de minha vida. Inicialmente, seria, sim, uma sequência, pois eu me perguntava o que estariam fazendo aqueles personagens hoje. Nessa época, início da década de 2000, reli toda minha obra a fim de escrever Luna Park. E, depois de terminar Abaixo de Zero, comecei a me questionar qual teria sido o destino de Clay, Julian e Blair. Estimulado, comecei a tomar notas e a preparar um livro que seria totalmente diferente de Suítes Imperiais - aparentemente apontava para uma história de amor na meia idade entre Clay e Blair. Mas, quando se escreve, a condição espiritual do momento interfere no trabalho e, naqueles três anos em que produzi Suítes Imperais, sofri muito, houve muita dor, muitos problemas, o que mudou sensivelmente o curso da trama, a ponto de Julian, esse personagem tão soturno, assumir um inesperado protagonismo. Assim, Suítes Imperiais seria uma sequência se considerarmos que são os mesmos personagens, mas prefiro dizer que esse (e todos meus livros) são o reflexo da minha alma em um determinado momento da vida.

Um ensaio de sua biografia estaria, então, entremeado entre suas obras de ficção?

Totalmente. Mas é isso que sempre me estimulou a escrever, desde criança quando rascunhei algumas letras de música, passando pela juventude pontuada por uma série de questionamentos até chegar à maturidade ainda insatisfeita. Eu diria que apenas os roteiros que faço para TV e cinema são impessoais - o restante contém um retrato disfarçado mas fiel do meu estado de espírito.

A experiência de reler a própria

obra foi reveladora?

Foi prazerosa em muitos aspectos. Voltar ao universo de O Psicopata Americano, por exemplo, permitiu descobrir detalhes estilísticos que ainda me agradam. Fiquei surpreso, aliás, com a seriedade do texto. Minha intenção era desmascarar pessoas como o serial killer Patrick Baterman e não criticar suas vítimas ou mesmo assumir uma posição misógina, como infelizmente muita gente pensou. Mas, como sempre, um autor não tem controle sobre seus leitores.

Abaixo de Zero foi marcante na literatura americana dos anos 1980 a ponto de transformá-lo no símbolo de uma geração desencontrada: você e seus personagens tornaram-se tipos representativos. Com o lançamento de Suítes Imperiais, você acreditou que isso

pudesse se repetir?

Não sei dizer pois não me preocupo com a reação dos leitores. Pode parecer presunção, mas não escrevo para ninguém a não ser eu mesmo. Suítes Imperais nasceu a partir de uma necessidade de expulsar demônios que me atormentavam internamente e de compartimentar meus problemas - se isso atingir emocionalmente alguém, ótimo. Caso contrário, não me importo. Quando lancei Abaixo de Zero, em 1985, depois de ouvir diversas recusas de editoras, iniciei esse processo de passar a limpo meus diários por meio da ficção, embora Clay, o personagem principal, fosse mais passional e bem humorado do que eu. Voltando à sua pergunta, tenho apenas um leve interesse pelo que pensam os leitores logo que cada livro é publicado, quando leio comentários em blogs e outros sites. Exceto isso, jamais. O único leitor que me interessa sou eu mesmo.

Aliás, é comum sua imagem ser confundida com a de seus personagens, especialmente nos excessos. Isso te incomoda?

Um pouco, pois as pessoas ainda tendem a me ver como um garoto perturbado e atraído pelos excessos, que passa as noites em festas, drogando-se e usando ternos caros. Meu nome se transformou em sinônimo desses exageros: (imitando outra voz) "Tive uma noite Bret Easton Ellis!" (risos). Não sou nada disso, adoro passar as noites em casa, vendo TV, de sandálias, o que definitivamente não é nada sexy.

De fato, é curiosa a frase que encerra

Suítes Imperiais: "Jamais gostei de ninguém e tenho medo das pessoas". Você não

valoriza a fama?

Quando lancei Abaixo de Zero, estava com 21 anos e a fama era muito importante para mim. Gostava muito, aliás. Adorava viver badalado, deter um poder econômico e social, acreditar na possibilidade de fazer o que bem entendesse. Isso foi positivo. Mas, de outro lado, a fama deteriorou amizades verdadeiras, me obrigou a estar em lugares insuportáveis, ou seja, transformou-se em uma armadilha.

Você ainda sente alguma força em Abaixo de Zero? Como você analisa a força desse livro atualmente?

É uma obra ainda viva. Desde que voltei a Los Angeles, em 2006, pessoas me dizem que se mudaram para a cidade por conta da sedução provocada pelo livro. Por outro lado, lamento que Abaixo de Zero provoque agora uma visão sentimentalizada, como se fosse um típico produto dos anos 1980 assim como eram os filmes de John Hughes, em vez de se manter como um retrato de experiências obscuras, como era minha intenção original.

A narrativa de Suítes Imperais começa tranquila, com um ritmo agradável, até enveredar para o suspense, especialmente por conta da paranoia de Clay, que se sente

constantemente vigiado.

Quando escrevia esse livro, eu devorava as novelas policiais de Raymond Chandler, o que me motivou a pensar em um romance sobre Hollywood, especialmente o mito da exploração que marca a indústria do cinema. Isso explica o narcisismo de Clay: eu estava interessado em mostrar o que acontece quando um narcisista quebra a cara, a partir do momento que seus truques não funcionam mais. Chandler escreveu esplendidamente sobre isso.

Você também colabora com a indústria do cinema, assim como a televisão. Como funciona isso? Você já está trabalhando com Paul Schrader em um novo filme, Bait?

Aprendi a conviver com o cinema e a TV como indústria e procuro sempre tirar o melhor partido - ou, ao menos, não perder tanto. Aproveitei, por exemplo, a turnê de lançamento de uma série de TV para vir a Los Angeles e procurar uma nova casa. Sobre Bait, escrevi esse roteiro há alguns anos e já o considerava esquecido quando meu agente me informou do interesse de Schrader. Espero que ele o leve adiante pois gosto de seu estilo cinematográfico.

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