Glamour e arte

Festival de Cannes começa na quarta, com críticas aos filmes e ao flerte com Hollywood

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2013 | 02h06

Tudo quase pronto para que, na quarta-feira, Cannes estenda o tapete vermelho e inicie a maratona do seu 66.º festival. Existem grandes eventos de cinema no mundo, mas festival maior que o de Cannes, não há. Desde que a seleção foi anunciada, no mês passado, têm proliferado críticas ao diretor artístico Thierry Frémaux. Quais são seus critérios? O que faz com que o Brasil - e a América Latina - estejam tão parcamente representados? O Brasil não tem nenhum longa, em nenhuma mostra. Frémaux fala em qualidade, no equilíbrio entre novos talentos e veteranos, mas a competição, em princípio, parece menos interessante que a seção Un Certain Regard, Um Certo Olhar, que traz novos filmes de autores de ponta.

Um Certo Olhar, que também é uma mostra competitiva, embora não outorgue nem a Palma de Ouro nem a Caméra d'Or (para novos diretores até o segundo filme), terá uma jurada brasileira, a diretora do Festival do Rio, Ilda Santiago, e isso, mais alguns curtas, é o máximo que o Brasil terá em Cannes. Pode ser recalque de excluído, mas só para citar um exemplo, o Faroeste Caboclo, de René Sampaio, já concluído (e que estreia dia 30), não faria feio em nenhuma mostra. Até poderia deixar a Croisette aureolado como cult.

Atrações não vão faltar. O júri da Palma de Ouro, o principal, será presidido por Steven Spielberg. Durante os 12 dias do evento, pouco importa quem está no Eliseu - o Palácio do Planalto deles. M. le Président, neste período e com toda pompa e circunstância, é sempre o presidente do júri de Cannes. As próprias críticas à mostra competitiva precisam ser relativizadas. Afinal, grandes nomes estarão na disputa da Palma. Confira na lista - Arnaud Desplechin, Asghar Farhadi, James Gray, Jia Zhang-ke, Hirokazu Kore-eda, Takashi Miike, Paolo Sorrentino, Roman Polanski, Abdellatif Kechiche, Nicolas Winding Refn, os irmãos Coen. Na mostra Un Certain Regard, Claire Denis, Sofia Coppola, Hany Abu-Assad.

A curiosidade é que nas mostras que compõem a seleção oficial - competição e Um Certo Olhar -, Cannes vai mostrar filmes de atrizes que estão estreando (Valeria Golino) ou perseveram na direção (Valeria Bruni-Tedeschi). Haverá uma homenagem a Jerry Lewis, outra a Stanley Kubrick, seguida da master class do ator Malcolm McDowell, de A Laranja Mecânica. Como todo ano, Cannes Classics exibe versões restauradas de filmes clássicos. A lista de 2013 inclui a Cleópatra de Joseph L. Mankiewicz; Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais; Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Démy; Charulata, de Satyajit Ray; Tarde de Outono, de Yasujiro Ozu; O Deserto dos Tártaros, de Valerio Zurlini; Lucky Luciano, de Francesco Rosi; Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock; e O Grande Vigarista, de Ted Kotcheff.

E tudo começa depois de amanhã, com a gala de abertura. Muitos (críticos?) hão de dizer que Cannes flerta com Hollywood e mostra a nova versão de O Grande Gatsby somente para ter Leonardo DiCaprio, um mega astro, em seu tapete vermelho. É subestimar o diretor australiano Baz Luhrmann, cuja trilogia da cortina vermelha (Vem Dançar Comigo, Romeu + Julieta e Moulin Rouge) é o máximo que o cinema produziu em matéria de artifício, nos últimos 20 anos. Quem foi que disse que o cinema tem de ser realista? Desde as suas origens, os irmãos Lumiére e Georges Mèliès se disputam no imaginário do cinéfilo. Mas o desafio de Luhrmann, desta vez, é imenso - a dele é a quarta adaptação do romance de Scott Fitzgerald e até hoje o cinema só ficou a dever ao grande escritor.

Um detalhe não negligenciável nesta história é o cartaz da 66.ª edição. Mostra Paul Newman e Joanne Woodward, clicados num intervalo de filmagem de Amor Daquele Jeito, de Melville Shavelson. O filme é pouco mais que medíocre, mas a dupla é imorredoura. Um astro, uma estrela, dois vencedores do Oscar e um casamento que durou 50 anos, na arte e na vida. Newman fez filmes de autor para celebrar a arte de sua mulher. A semiologia fornece ferramentas para se analisar a imagem. Não é a submissão de Cannes a Hollywood. É a paixão do cinema, e dos que se imortalizaram no imaginário do público de todo o mundo.

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