"Giselle" sofre com defeitos técnicos

Quando se vende ingressos a R$ 300 num país como o Brasil (cerca de US$ 115) e se anuncia que o espetáculo terá música ao vivo, essa música deve, pelo menos, ter padrão profissional compatível com o que representa um preço desses no nosso contexto. Em São Paulo, no Teatro Municipal, não foi isso que se passou com a Giselle que o Ballet da Ópera de Paris trouxe para a sua terceira turnê brasileira. Em conversa durante o intervalo, um dos músicos que tocava naquela noite comentou que não se tratava sequer da Orquestra Sinfônica Municipal, pois alguns de seus membros não haviam aceitado as condições oferecidas. E que o conjunto que se apresentava havia ensaiado apenas duas vezes antes daquele momento.Por se tratar de uma dança com música ao vivo, a qualidade da música que se ouve é determinante para o sucesso do que ocorre no palco. Evidentemente, a Giselle que se viu naquela noite foi vitimada pela inaceitável falta de respeito com o público, a partir da absoluta ausência de profissionalismo com que a música foi tratada pelos responsáveis por essa situação.Essa Giselle, adaptada por Patrice Bart e Eugène Polyakov em 1991, nasceu da versão de Marius Petipa sobre o que anotara da montagem original de Jean Coralli e Jules Perrot na partitura que tinha sobre seus joelhos no dia da estréia da obra, em 28 de junho de 1841. Tem cenários reconstruídos por Silvano Mattei e figurinos realizados por Claudie Gastine, também a partir dos originais que Alexandre Benois criou para a versão de 1924.É como ir ao museu para desfrutar de conceitos e modos de realizá-los já não disponíveis em companhias de repertório similares. Ou seja, trata-se de uma oportunidade rara, especialmente para os que se interessam pela história da dança. Quem não atentar para a peculiaridade da situação e conhecer outras montagens clássicas dessa mesma Giselle, poderá senti-la menos enfática que essas. Mas reside justamente nessa falta de excessos a sua beleza e a sua dificuldade.Com corpos treinados numa técnica voltada para outros objetivos, como sucede hoje em qualquer companhia de prestígio no mundo, a decisão de realizar uma produção que contemple o que valia há 161 anos se torna um desafio de muita dificuldade.Uma vez que Giselle nasceu lá, o Balé da Ópera de Paris se mostra o lugar indicado para tal empreitada. Todavia, passadas tantas interpretações emblemáticas do papel, dedicadas aos mais variados gostos (Alicia Alonso, Carla Fracci, Alicia Markova, Galina Ulanova, em termos internacionais, e Ana Botafogo, aqui no Brasil), a de Laëticia Pujol se mostra frágil. Falta clareza dramatúrgica na sua realização desse personagem. Aliás, também ao Albrecht de Nicolas Le Riche. Não apenas na famosa cena da loucura, em que fica muito explícito o problema de todos, mas sobretudo na ausência de personagens nos pas-de-deux do casal central. Tudo é realizado com competência técnica na execução dos passos, mas sem aquilo que transforma esse tipo de material em balé romântico de fato.Um desses acidentes que não se espera que aconteçam em nenhuma encenação, especialmente quando se trata de algo com a grife da Ópera de Paris, surpreendeu a platéia do sábado: uma das saias de tule do figurino de Laëticia rasgou na cena do banco, no início do primeiro ato.

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