Giselle, para aqueles que ''torceram o nariz''

Felizmente, vivemos um momento de expansão da dança contemporânea em São Paulo, com a consagração da pluralidade de visões e experiências, muitas delas proporcionadas pelo advento da lei de Fomento à Dança da Prefeitura, que há cerca de seis anos viabiliza diferentes pesquisas e produções nessa área. Vimos, assim, crescer o número de grupos e de produções de dança com diferentes ambições, mas não necessariamente vimos crescer o público de dança. O Balé da Cidade de São Paulo, pioneiro há 42 anos na valorização da dança contemporânea, agora se lança na tarefa de formação de plateia.

Lara Pinheiro, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2011 | 00h00

Nesse sentido, em 2010, o Balé da Cidade produziu três espetáculos, Terra Papagallis, dirigido ao público infantil; Crônicas do Tempo, apresentado na abertura da 29.ª Bienal de São Paulo; e, mais recentemente, uma releitura do clássico Giselle, que busca o diálogo amplo com o público, desde aquele que aprecia essa obra clássica romântica de 1841, quanto o espectador cativo de dança contemporânea, além de atrair o público leigo.

A criação deste Giselle, coreografada por Luiz Fernando Bongiovanni, optou corajosamente por enfrentar o risco de unir o erudito com o popular, o contemporâneo com a tradição.

Sua aposta tanto contemplou a magnitude de seu elenco de 36 bailarinos, o envolvimento de dramaturgo, assistentes, cenógrafos, figurinista, iluminadora, quanto o apuro da Orquestra Experimental de Repertório com seus 70 músicos em cena, usufruindo todos de uma das joias do patrimônio arquitetônico da cidade, o Auditório Ibirapuera.As opções estéticas foram entusiasticamente validadas pela plateia de 2.400 pessoas que lotou o Auditório em apenas três récitas.

A crítica, quando bem exercida, compreende o fato estético. E o atualiza e o aprimora. Não nega simplesmente a obra. Porém, a crítica do Estado "torceu o nariz", o que também está no seu direito. A questão fundamental levantada pela professora Helena Katz - "até onde o desejo de produzir para quem não conhece o assunto, flexibiliza a exigência de qualidade necessária para se comunicar com quem conhecesse?" - é uma questão permanente da criação artística. A versão de Giselle do Balé da Cidade lançou mão de opções e articulações de diferentes linguagens, recombinando-as e rearticulando-as, com o objetivo de contar uma história consagrada e codificada, sem abrir mão da qualidade, marca registrada da companhia. A crítica deixa transparecer que "qualidade" é referência de poucos, os especialistas, enquanto que apenas aos outros, os ignorantes, é permitido se emocionar, se encantar, ou, simplesmente, gostar do que assistiram.

Olhares. No caso específico de Giselle, objetivou-se a criação de uma obra que dialogasse diretamente com o público, com uma diversidade de olhares, plural em suas referências, fazendo jus ao papel de uma companhia pública de apresentar não a experimentação em torno de um conceito abstrato, mas uma obra completa que una rigor e profissionalismo.

O que foi apontado como queda na qualidade do desempenho do elenco é, na verdade, uma opção por uma diferente construção coreográfica que não propõe uma uniformidade, uma igualdade de desenhos e formas, como reza a tradição, e sim, uma unidade de intenção de movimento que explora as nuances de cada bailarino, proposta inerente à dança contemporânea.

Elenco privilegiado. É por dispor de um elenco privilegiado, que mereceu o prêmio da APCA do ano passado, e de um time de ensaiadoras reconhecidamente de excelência, que o Balé da Cidade pode investir na personalidade de seus bailarinos.

Se o risco é inerente a toda empreitada artística, o seu sucesso, não. Em Giselle, o final apoteótico, quando se abre a cortina de fundo do Auditório Ibirapuera para o voo no abismo de Albrecht, enquanto sua Giselle, ensandecida, clama por ele ao som retumbante dos acordes finais da orquestra, embora de efeito dramático, não nos blinda nem cega diante da tarefa cotidiana da busca de qualidade no trabalho, mas legitima nosso objetivo inicial e atribui um papel ao público das artes cênicas. Uma obra que não é vista, sentida, apreendida pelo público, não existe. Ou existe apenas pela metade. A metade dos especialistas, dos conhecedores, que desprezam a difícil arte da comunicação. Com Giselle, o Balé da Cidade comemora o fato de existir por inteiro!

LARA PINHEIRO É DIRETORA ARTÍSTICA DO BALÉ DA CIDADE

E-mail: larapinheiro@prefeitura.sp.gov.br

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.