Gira mundo, gira disco

Num universo de 30 grandes álbuns da MPB, o 'Estado' convida leitores a uma votação inédita: escolha o melhor

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h06

O baião não é desse mundo. Se é, vem debaixo do barro do chão, como diz Gilberto Gil. O sertanejo, talvez, venha ainda de mais longe. Do samba, não há origem definida. Os baianos brigam com os cariocas há um século pela autoria do gênero, sacudindo seus testes de DNA sempre que alguém coloca sua paternidade em dúvida. O rock and roll já tem um histórico mais claro. Oficialmente, teria nascido no Brasil com uma turma pré iê-iê-iê ainda antes de 1960 chegar. Cauby Peixoto, ele mesmo, foi quem gravou o primeiro, em 1957, registrado como Rock and Roll em Copacabana. Mas o gênero só ganhou visibilidade mesmo com a estreia do Programa Jovem Guarda, em 1965. Erasmo e Wanderlea foram contratados por Paulinho Machado de Carvalho, da Record, para apresentarem um musical jovem a ser exibido nas tarde de domingo. Erasmo indicou um amigo e Paulinho disse que o trouxesse aos estúdios da emissora para fazerem um teste. O amigo era Roberto Carlos. A linha evolutiva do rock mostra que a Jovem Guarda vira Rock Nacional nos anos 70, com Raul Seixas e Rita Lee no front, Rock Nacional Anos 80, com Titãs, Ira! e Paralamas, e Rock Nacional Anos 90 com... Bem, aí a coisa muda um pouco de figura.

Ao virar esta página, não se assuste. O quadro com a evolução dos gêneros musicais no Brasil desde 1940 é populoso mas não definitivo. Com mais de setenta anos de história, a contar apenas a partir da Era de Ouro das vozes do rádio, a música brasileira, reconhecida como uma das mais prósperas do mundo, sempre se movimentou em ondas. Quando a bossa nova surgiu, o baião desapareceu. Quando o rock deu as caras, a MPB entrou na toca. O grande quadro que fizemos com pistas daquilo que Caetano Veloso chama de linha evolutiva da música brasileira vem como suporte para uma eleição que o Caderno2+Música lança a partir de hoje, em parceria com a Rádio Eldorado FM. Até a meia noite do dia 4 de setembro, o leitor poderá ir ao portal do Estadão e votar em um dos 30 álbuns que apresentamos nas páginas seguintes. No sábado, dia 8, o C2+Música fará uma matéria especial com o disco que recebeu mais votos.

A escolha da lista prévia com os 30 álbuns foi realizada por jornalistas do Grupo Estado, seguindo alguns parâmetros que amenizassem as injustiças inerentes à natureza das eleições do tipo. Cada grande nome foi representado por um álbum considerado importante em sua carreira sob dois aspectos: o da inovação, intencional ou não, e o do entendimento dessa inovação pelo público. Assim, Olho de Peixe, de Lenine, seu LP de linguagem mais surpreendente, deu lugar a O Dia em que Faremos Contato, em que desenvolveu suas propostas e o fez chegar às grandes plateias.

A redação discutiu sobre a inclusão do rapper Criolo na lista dos 30, mas o tempo ainda não deu seu veredito sobre a longevidade de um cantor e compositor tido hoje como uma das manifestações mais autênticas da música moderna. Quando se fala em clássico, não tem jeito. É preciso esperar dez anos para saber se a próxima geração repetirá o nome do artista, baixará suas músicas e comprará seus CDs nos sebos.

É de 2003 o último exemplar de um clássico produzido pelo mercado fonográfico brasileiro. Os Los Hermanos lançaram Ventura e arrebanharam um público respeitável. Arrebanhar um público respeitável não é também critério para se erguer um grande álbum. Elis Regina nunca foi uma senhora vendedora de discos e, no entanto, só fez obra prima. Ao lado de Tom Jobim, outro nome ironicamente de tímida expressão comercial, registrou um dos duetos mais incríveis da história.

No fundo mesmo, todo esse negócio de lista, algo que os gringos vivem fazendo com seus patrimônios culturais, não passa de pretexto, mero pretexto para falarmos mais uma vez desses gênios que só tornaram nossas vidas bem melhores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.