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Ginzburg olha o presente com uma luneta invertida e fascinante

Sua obra é uma viagem fascinante e erudita na qual se misturam arte, política e religião

Elias Thomé Saliba - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2014 | 20h45

Para compreender a atualidade é preciso subtrair-se ao rumor incessante de informações que nos chegam de toda parte e olhar para o presente através de um espécie de luneta invertida. Só assim a atualidade surgirá de novo, inesperada e em cenário diferente. Com o toque de um historiador que desencrava temas inusitados, esta é a principal lição de Carlo Ginzburg em ‘Medo, Terror, Reverência’, uma viagem fascinante e erudita na qual se misturam arte, política e religião.

O ponto de partida é o estudo da sobrevivência de fórmulas emotivas ao longo da história visual do Ocidente – sugeridas por Aby Warburg, o decano dos estudiosos da arte. Mas Ginzburg vai muito além.

No primeiro ensaio, Ginzburg começa por desentranhar o gesto superlativo do medo, transposto na imagem do frontispício do livro ‘Leviatã’, escrito por Thomas Hobbes em 1651. Mas é preciso paciência do leitor para acompanhar Ginzburg na sua aventuras como detetive da filologia: a partir de uma tradução obscura que Hobbes faz de uma passagem de Tucídides, de “restringir” para “intimidar”, elabora todo um significado novo para a noção de medo em Hobbes: a imagem do monstro bíblico Leviatã, que tudo abarca e exige reverência respeitosa, persiste no inconsciente coletivo com nítido conteúdo religioso, mesmo no pacto político moderno. E o ensaio termina de forma surpreendente, com a referência, do ângulo da luneta invertida, a Shock and Awe, (Choque e Pavor) nome da operação de bombardeio militar americano no Iraque, em 2003. O awe de Hobbes reaparece aí, séculos depois, não como terror psicológico, mas como aquela mesma intimidação sagrada, nada secular, fruto da arrogância militar e tecnológica; intimidação que reitera a frase de Tácito: somos dominados por mentiras cujos autores somos nós mesmos.” Não é só a partir daí que será possível retomar a critica das linguagens e imagens da política?

“O divino Marat, com um braço fora da banheira e a pena pela última vez na mão agora inerte, o peito trespassado pelo ferimento sacrílego, acaba de soltar o último suspiro.” Esta descrição de Baudelaire, em 1846, a frente do famoso quadro de David serve de inspiração para Ginzburg desentranhar inúmeras alusões cristãs nesta imagem comumente vista como paradigma da revolução secular. Vale a pena acompanhar Ginzburg por imensas galerias de pinturas nas quais ele nos chama atenção para detalhes antes imperceptíveis, incluindo o seu magistral ensaio sobre o vanguardismo estético e ideológico de Guernica, de Picasso.

Mas a joia fica para o penúltimo ensaio do livro. Pouco antes de estourar a 1ª Guerra Mundial, Lord Kitchener não passava de general inglês bastante impopular. “Era um caso de aversão, bem antes da primeira vista”, ironizou na época o jovem Churchill. Mas a figura de Kitchener transmutou-se na mais penetrante fórmula emocional quando virou pôster que o reproduzia com o olhos duros e penetrantes, e o dedo acusador em riste, com a inscrição: “Faça parte do exército do seu país!” Foi, na verdade, a versão primitiva do famoso cartaz do Tio Sam. Ginzburg vira e revira imagens antigas, de Minerva a Alexandre, o Grande, para mostrar a sobrevivência de duas fórmulas plásticas: aquela que via o espectador independentemente de onde ele estivesse olhando e a projeção em perspectiva do dedo monstruoso, que parecia sair fora do quadro. Para ilustrar este artificio visual, o historiador retoma fontes antiquíssimas, como a descrição que faz Plínio da representação de Alexandre por Apeles: “Os dedos parecem se projetar da superfície, e o raio dá a impressão de estar fora do quadro”. O raio era um atributo do poder, da reverência, do medo – que no contexto do século 20 acabaram sacralizados pela publicidade do início do século 20. De qualquer forma, nos cartazes de alistamento militar, as imagens inoculam um chamado quase religioso às armas.

O final do ensaio surpreende quando Ginzburg revela que o mesmo pôster de Kitchener aparece na famosa descrição de George Orwell no início de ‘1984’: “o pôster mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Era uma dessas pinturas realizadas de modo que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O Grande Irmão está de olho em você, dizia o letreiro”. Ao batizar o Big Brother, a qual imagem subliminar Orwell estava se referindo: a Minerva ou a Alexandre, o Grande? Com seu costumeiro brilhantismo, Ginzburg deixa a provocação para o leitor decidir.

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE RAÍZES DO RISO

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