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Gilson Rodrigues tenta impedir que o coronavírus devaste Paraisópolis

À frente da associação dos moradores, ele tenta frear o avanço da covid-19 em uma favela com 100 mil habitantes, onde o trunfo do isolamento – eficaz para conter o vírus – encara a desigualdade brasileira

Daniel Fernandes, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2020 | 05h00

A história de Budinha, como ele era conhecido quando menino, não é uma história com começo feliz. Não é uma história feliz em muitos aspectos. Mas é uma história que ainda não chegou ao fim e, assim, existe sempre a esperança de que tudo acabará bem. O Chapa 1, como depois foi chamado, até andava pensando em mudar o rumo dessa história, deixar o cargo, dar espaço para outros depois de dez anos. Não será possível. À frente da “União”, a associação dos moradores de Paraisópolis, Gilson Rodrigues, 35 anos, tenta frear o avanço da covid-19 em uma favela com 100 mil habitantes. É uma cidade incrustada na zona sul da Capital de lares de madeira e alvenaria onde o trunfo do isolamento – eficaz para conter o vírus – encara a desigualdade brasileira. São dez, doze, quatorze pessoas vivendo juntas em cômodos muito pequenos.

Viver (sobreviver) aos montes não é nem de longe uma novidade para qualquer um dos moradores da região, dramaticamente ligada ao bairro de classe média alta Morumbi. É assim hoje, era assim quando a família de Gilson desembarcou por lá, sessenta anos atrás. O menino baiano tinha dois anos. Era Filho da Muda, a mãe que ele não menciona o nome em nenhum momento da entrevista. Muda teve outros 13 filhos. Gilson encontrou sete. “Estão faltando os outros”. A mãe morreu faz tempo. Teve câncer no útero.

A história de Gilson é um vai e vem vertiginoso, difícil mesmo de acompanhar. Moleque solto, criado na rua catando cobre e latinhas, morava com parentes em Paraisópolis. E, como muitas crianças, fazia xixi na cama. Dos parentes, não ganhava compreensão. Ganhava castigo, como a vez em que o obrigaram a secar o xixi da noite anterior soprando o colchão. Era rejeitado. Se sentia assim. Talvez tenha confirmado isso quando a família toda foi à Bahia. O menino pensava que era para comemorar São João. Não era. Era para ser dado a uma tia. Foi para trabalhar na casa, vender frutas na rua. Ouvia sempre: “Se fizer xixi, vai embora e ninguém quer você”.

Mas quem disse que Budinha queria ficar lá? Não queria. E fazia xixi na cama. Em pé. A tia não aguentou muito tempo e levou o menino para a casa do avô. Ele também não queria o menino, mas logo morreu. E o menino foi viver com Titia. Assim, com maiúscula mesmo. Era o nome de Vitória Cruz de Alencar – Gilson fala sem vacilar. Horas depois da entrevista, o Chapa 1 de Paraisópolis mandou mensagem. “Te falei que a Titia morreu com 108 anos?” Falou sim, Gilson. E falou também que ela era brava. E negra. E alta. E metida a rica. Conhecia de remédios, por isso era “remedeira”, quem fazia e ministrava doses para os doentes da região. Era a mãe do menino.

Assim como na casa da outra tia – com letra minúscula mesmo –, Gilson trabalhava. Acordava cedo e ia atrás de acender o fogão pro feijão e correr atrás de lavagem para os porcos que Titia criava. Se não trazia, apanhava. E também, como na outra tia, vendia frutas. Era uma criação dura, mas foi com ela que o menino aprendeu a ser “reto, trabalhador”. O menino retribuía escrevendo cartas para a mãe que chamava Titia. Cartas para os filhos que ela também tinha.

Depois de acompanhar Titia em São Paulo, e voltar com ela para o Nordeste, Gilson ganhou um porco só para ele. Descobriu que uma passagem para o Rio de Janeiro custava R$ 30. Vendeu o porco, comprou a passagem. Titia não queria que fosse. Foi. Ficou seis meses e voltou para São Paulo, para Paraisópolis. Ficou com outra tia, tia Loira. Com ela, vendia pinga e churrasco na porta do estádio do São Paulo, ali perto da favela. Ainda fazia xixi na cama. Um dia, ouviu que “filho de p. não tem pai”, que filho assim tem sangue ruim, não presta, que ele não seria ninguém. Fugiu de casa e vagou três dias pela região. Ganhava dinheiro como guardador de carros. Os carros daqueles que chegavam no hospital Albert Einstein, perto do Morumbi, perto de Paraisópolis. O hospital do primeiro caso do novo coronavírus no Brasil.

Depois de três dias, resolveu voltar. Gilson diz que esse foi seu dia ‘D’, quando deixou de se sentir rejeitado. Voltou para se vingar. “Vou ser alguém”. Foi estudar. Participou de um projeto bancado por uma seguradora – cita o nome de Jayme Garfinkel com a mesma agilidade que lembra o nome de Titia. Destacou-se e um dia resolveu montar um grêmio na escola. Ouviu que não era bem assim, que precisaria concorrer para ser o presidente do grêmio. Sua chapa se chamava Grêmio da Unificação Democrática Estudantil e percorreu a campanha eleitoral sem atropelos. Uma semana antes da votação, apareceu Naldinho e sua chapa que se chamava Auê. Só Auê mesmo. Com uma plataforma que consistia em viabilizar festas na escola. O adversário ganhou a eleição.

A gestão desapontou os apoiadores de Naldinho. E Gilson e seu grupo de apoiadores venceu a eleição seguinte. Diz que fez rádio, jornal, biblioteca e até sala de informática. Um tempo depois, foi convidado para assumir a “União”, a associação de Paraisópolis. Aceitou desde que não houvesse concorrência, que todos se unissem. Nessa época de eleição ficou conhecido como o Chapa 1. Dez anos atrás. Nesse tempo todo, Chapa 1 diz que viabilizou mais de R$ 1 bilhão em investimentos em Paraisópolis junto ao poder público. Teve CEU, Etec, um pouco mais de educação, de saúde, de habitação. Conheceu 14 países.

Divorciado, pai de dois meninos, Vinicius tem 14 anos e Eduardo, o Dudu, tem 8, pensava em deixar a função da última década. Mas aí o coronavírus chegou. O menino arregaçou as mangas mais uma vez e montou o “fluxo”. Nas duas últimas semanas, encontrou 840 moradores. Eles se tornaram presidentes e vice-presidentes de rua. Cada dupla cuida de 50 famílias. A ação abrange as 21 mil famílias da ‘cidade’. Cada presidente tem quatro responsabilidades diárias. Manter todos em casa, distribuir as doações que chegam em número insuficiente e, principalmente, acionar as ambulâncias em caso de suspeita de covid-19.

Gilson alugou três. Duas normais e uma UTI. Alugou ao custo de R$ 5 mil por dia. Alugou, mas ainda não pagou. Em um mês, terá gasto R$ 150 mil. Gilson gostaria de ajuda para arcar com esse custo.

A quarta responsabilidade dos presidentes e vice-presidentes de rua é combater fake news. Tem gente em Paraisópolis dizendo que o coronavírus é doença de rico. E Gilson sabe que não é. O organizador de Paraisópolis ainda viabiliza em duas escolas da região uma espécie de centro de acolhimento para as pessoas, da comunidade, que apresentarem os sintomas. Uma maneira de evitar a propagação da doença. Como a China fez. O protocolo de ações está sendo usado em outras comunidades. Gilson menciona a Rocinha no Rio de Janeiro e uma favela em Belo Horizonte.

Ao citar as medidas que adotou, Gilson é duro como a vida o fez. “A favela está se organizando e a classe média vai viver uma experiência que a gente sempre viveu. Vai pegar fila no hospital. E vai morrer. A classe média tem que se organizar também”. Mas ele também sonha. “O que eu quero fazer é ajudar as favelas para que elas sejam agentes de sua transformação. As favelas do Brasil e do mundo”. Seria um belo final feliz. 

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