Gilberto Gil, entre a música e a política

Aos 60 anos, completados em junho,o baiano Gilberto Gil chega ao Ministério da Cultura no auge do sucesso pessoal e profissional. Filho de médico e de professoraprimária, formou-se em administração de empresas e até exerceu a profissão no início dos anos 60, antes de deslanchar comomúsico. Ficou nacionalmente conhecido no festival da TV Record, de 1967, quando tirou o terceiro lugar com Domingo noParque, um conto de amor e morte musicado que apresentou com os então adolescentes Mutantes, num arranjo anárquico naépoca e até hoje pleno de vigor.Desde então, não saiu das paradas de sucesso, lançando hits anuais (fez discos com Caetano Veloso, Jorge Benjor, Rita Leeetc) e definindo os rumos da música popular e de seu mercado. Foi dos primeiros a gravar reggae e rock, além de ter trazido devolta compositores esquecidos Gordurinha e Jackson do Pandeiro. Com quatro casamentos e seis filhos, o maior golpe sofridofoi a morte, em acidente de automóvel, do seu filho mais velho, Pedro, baterista que começava a chamar atenção tocando como pai e com sua própria banda.Política sempre foi assunto de Gil. Antes do sucesso, duas músicas suas, Lunik-9 (sátira à Guerra Fria que Estados Unidos eUnião Soviética encenavam no espaço) e Louvação (panfletária canção com Torquato Netto) foram sucesso com Elis Regina. Ele mesmo se destacou com Procissão, crítica feroz à política federal para o Nordeste. Já famoso, desafiou militares na rumbaSoy Louco por ti, América (com Capinan e Torquato Netto, gravada por Caetano Veloso), homenagem explícita a Che Guevara,e teve que se exilar em Londres, depois de passar meses na cadeia, junto com Caetano Veloso. Na despedida, fez o sambaAquele Abraço, pungente declaração de amor ao Rio de Janeiro e ao Brasil. Depois da volta, sua versão para No Woman, noCry, de Bob Marley virou hino da anistia.A política partidária demorou a atraí-lo, mas Gil simpatizou com Lula, em especial, e o PT, em geral, desde os primeirostempos. Só nos anos 80 filiou-se a um partido, mas ao PV, devido a resistências que sentiu no PT. Eleito vereador, em 1988,em Salvador, foi pouco atuante e não quis tentar a reeleição. Votou em Fernando Henrique Cardoso em 1994 e não semanifestou em 1998, mas aderiu a Lula logo. ?Desde o segundo mandato do Fernando Henrique, mas não estou na campanha,não tem sido necessário?, disse ele ao Estado em setembro desse ano. Mas atuou sim em favor do PT. Fez reuniões em casa,participou de shows e pediu que se evitassem cobranças ao futuro presidente. Lula o contestou no ato, alegando que agemelhor sob pressão. Dentro ou fora do Ministério, Gilberto Gil considera a atuação política do artista decorrência de sua atividade profissional, aomenos em seu caso. Mas acha que está mais devagar hoje que no passado, embora considere seu disco Kaya na Gandaya,com músicas de Bob Marley, um manifesto. ?A sociedade não está precisando agora de linha auxiliar que, em muitosmomentos históricos, eram a classe artística e os autores musicais?, disse ele ao Estado. No ministério, o contestador vaimudar de lado.Para ler o índice de notícias sobre a transição nos Ministérios, clique aqui.

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