Gilberto Gil e o futuro do disco

Às vésperas dos 70 anos, ele fala sobre iTunes, Ecad, seu acervo digital - e a ação do tempo

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2011 | 03h09

Cercado de sigilo, o iminente início das vendas pelo iTunes no Brasil - a chegada da maior loja de música digital do mundo, aguardada ansiosamente pelo mercado, será celebrada no próximo dia 15, com uma festa em São Paulo, mas não se divulgam detalhes sobre as operações -, leva à pergunta: quanto vale um fonograma?

Para Gilberto Gil, 57 discos lançados em quase 50 anos de carreira, e uma bagagem gorda de hits, o valor deveria ficar "perto de R$ 1". Os preços deverão ser fixados, a princípio, em dólar: US$ 0,70 (R$ 1,25, na cotação de ontem), US$ 1 (R$ 1,79) e US$ 1,25 (R$ 2,23), dependendo da negociação com cada gravadora.

"O custo da produção e comercialização de uma música é perto de R$ 1. Se você está falando de lojas eletrônicas, sem o custo do suporte, cai ainda mais", diz o compositor, sempre com a parabólica voltada para o futuro.

"Eles não podem trabalhar com uma visão uniforme, simplesmente transpor o sistema que funciona no Primeiro Mundo para vir para o Segundo ou o Terceiro Mundo. Num CD de 14 músicas, praticamente não haveria desconto efetivo. (O sucesso) vai depender um pouco da disposição desses grandes sistemas, Apple, Amazon, Google, de trabalhar com a diversidade."

Gil acha bem possível que ao menos uma parte do público acostumado a baixar música e/ou a comprar CDs piratas - práticas que dinamitaram os lucros das gravadoras nos anos 2000 em mais de 60% - se renda. "No mundo digital, a precificação se aproxima do zero, então você tem uma disputa menos complicada entre o pago e o gratuito."

É a aposta do mercado. Os analistas veem o início das vendas (a princípio por meio de cartão de crédito internacional) como a boa nova desse início de década, um passo decisivo para o consumo de música legal no Brasil - país que, estima-se, pode vir a ser o sétimo faturamento do iTunes. A simplicidade do sistema e a disseminação de iPods, iPhones e iPads são facilitadores.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Discos, Paulo Rosa, os números de 2010 na área digital foram 26% maiores do que os de 2009. Os referentes aos CDs físicos não mudaram. "Em termos comerciais e de marketing promocional, é a melhor notícia do ano. Prevemos para 2012 um crescimento fortíssimo para o mercado digital", afirma.

"A entrada vai abrir o mercado para outros serviços. Todo mundo está ansioso. O CD vai continuar existindo, não é para ter um pensamento apocalíptico", endossa Marcelo Castello Branco, executivo da área de entretenimento com larga experiência em gravadoras.

Gil não revelou se seu catálogo já entrará no iTunes. Espera-se a inclusão dos de Roberto Carlos, Chico Buarque, Ivete Sangalo e Claudia Leitte, entre outros. Ele é dos que acham que o CD vai virar um produto de nicho, como se tornou o vinil. Seus trabalhos futuros podem ser lançados digitalmente, com bônus para quem adquire determinado número de faixas.

Tempo. Os 70 anos chegam em 2012. A voz está em dia, o corpo tem a agilidade de quem se exercita todos os dias e se alimenta com consciência. "Tô ativo, tô vivo". Mas... "Não me sinto mais novo, me sinto mais velho do que eu sempre estive acostumado a me pensar. Agora já me considero velho."

Os cinco anos no Ministério da Cultura (2003-2008) provocaram mudanças de hábitos e de assuntos. Sobre a polêmica que tange a nova Lei dos Direitos Autores, ele diz que ainda não tem posição fechada sobre um de seus pontos centrais: a fiscalização do Ecad, entidade que paga os artistas pela execução de suas músicas, por uma agência reguladora do governo.

Um não polemista por natureza, Gil vê com graça o fato de o projeto da ministra Ana de Hollanda ser centrado no da gestão Gil-Juca Ferreira. "Mas é compreensível que se quisesse rever a questão", relativiza.

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