Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Gilbert & George voltam a São Paulo e buscam local para grande mostra

Dupla célebre provoca: 'Nesta 30ª Bienal, temos a sensação de que nada mudou nos últimos 30 anos'

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 03h07

Eles sempre vestem ternos parecidos, falam numa espécie de jogral, são estranhos e normais ao mesmo tempo, e desde 1967 estão juntos, tendo Londres como morada - a dupla Gilbert & George desembarcou em São Paulo esta semana e, nesta quarta-feira, 5, pelo menos, teve um dia intenso. Eles recusam a alcunha de performáticos, mas pela manhã, na Casa de Vidro da arquiteta Lina Bo Bardi, no Morumbi, e pela noite, no Teatro Oficina capitaneado pelo diretor José Celso Martinez Corrêa, no Bexiga, Gilbert & George falaram sobre sua obra e entoaram, intercalando-se, o "alfabeto" da dupla - de A a Z, em inglês, e enumeraram palavras relacionadas, principalmente, a sexo (até cantaram, também). São provocativos e bem-humorados, definem-se como criadores de "living sculptures" (esculturas vivas). E dizem que os temas de sua arte são sexo e religião, dois "tabus".

"Nós nunca realizamos uma performance, mas as pessoas acreditam que nós realmente fazemos isso", diz George (Passmore). "Não gostamos da palavra com P", brinca Gilbert (Prousch). Na segunda-feira, 3, os famosos artistas fizeram uma visita prévia à 30.ª Bienal de São Paulo, no Ibirapuera - e a "palavra com P" é presença de destaque na mostra, aberta nesta sexta-feira, 7, para o público. "Nesta Bienal, temos a sensação de que nada mudou nos últimos 30 anos", observa Gilbert. "Todos estão apenas revivendo o passado, até os artistas bebês", completa George.

Para a dupla, que participou da 16.ª Bienal de São Paulo, em 1981, a performance "aliena grandes grupos de pessoas". "Acreditamos numa arte universal: fazemos de nós mesmos o centro de nossa arte. Não precisamos 'performar', começar e terminar alguma coisa, estamos nela", diz Gilbert. Falando, caminhando ou ficando apenas sentados, lado a lado, com seus ternos (uniforme careta); ou, especialmente, sendo o centro de suas fotografias, vemos a reprodutibilidade, desde a década de 1970, de suas próprias figuras.

Celebrados em todo o mundo, contam que aproveitam seu retorno agora a São Paulo para procurar um museu que possa abrigar uma grande exposição da dupla - tal como já fizeram na Tate Modern (2007) e outras instituições do mundo. Por ora, estão em dúvida se preferem a Pinacoteca do Estado ou a Estação Pinacoteca, mas nada está firmado.

"Temos as grandes fotografias que fazemos, que são visualmente poderosas e estão nas nossas grandes mostras. Podemos mostrá-las onde quisermos e hoje, com o Instagram, mais pessoas podem vê-las", explica George. "Gostamos de estar em todos os lugares", diz Gilbert. Eles também se retratam em grandes pinturas.

Na verdade, a vinda de Gilbert & George neste momento ao Brasil está relacionada à apresentação do "prelúdio" da mostra O Interior Está no Exterior, com curadoria do suíço Hans Ulrich Obrist. O projeto propõe a cultuados criadores, brasileiros e estrangeiros, a criação de obras específicas para serem exibidas na Casa de Vidro, construção concluída em 1951 e projetada pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992) para ser sua residência ao lado do marido e ex-diretor do Masp, Pietro Maria Bardi (1900-1999). A exposição está prevista para ser aberta ao público em novembro.

Na apresentação para convidados, anteontem, do projeto na Casa de Vidro, Gilbert & George falaram sobre sua arte e mostraram uma fotografia especial que realizaram na sala do local e exibiram ao lado da lareira da residência - na composição, os dois estão de pé e de terno parados nas frente das grandes janelas envidraçadas, cujos frisos formam uma cruz (menção singela ao símbolo religioso?) Gilbert: "Na Inglaterra, crianças brincam em casas da árvore e, aqui, esta é uma casa da árvores para adultos..." George: "As pessoas, geralmente, acreditam em fantasmas; acreditamos que os verdadeiros fantasmas são memórias, fotografias".

O "prelúdio" da mostra ainda apresentou a instalação de espelhos Camuflagem, de Waltercio Caldas, em um dormitório da casa); os projetos de design dos japoneses Sanaa; desenhos de Alexander Calder; e obras sonoras do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, da artista Cinthia Marcelle e de Cildo Meireles (esta, divertida, faz ecoar na sala a frase "Lina, va fare un café", referindo-se ao casal Lina e Pietro).

Depois, à noite, Gilbert & George foram ao Teatro Oficina, também projetado por Lina Bo Bardi. Era possível esperar uma explosão de performance da dupla com Zé Celso, mas o evento foi até que muito bem comportado. Gilbert & George, primeiro, foram entrevistados por Obrist, e depois, ficaram sentados assisindo à performance (em português) do diretor em homenagem à arquiteta.

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