Gil quer R$ 300 milhões para a Cultura

Na madrugada de hoje, umcamarote atulhado de crianças, filhos, netos e agregados,esperando por um show que começaria com certo atraso, às 3h15 damanhã (1 hora e meia depois do horário previsto), o cantor eagora ministro da Cultura Gilberto Gil ainda achou tempo paraconversar com a reportagem do Estado, nos bastidores doFestival de Verão de Salvador.Ele revelou que gostaria de ter a Ancine (AgênciaNacional de Cinema) de volta à tutela do Ministério da Cultura(hoje, ela é ligada à Casa Civil da Presidência), que enfrentalobbies para indicar o novo presidente da Fundação Palmares, eque quer pelo menos R$ 300 milhões para destinar à renúnciafiscal pelas leis de incentivo em 2003.Gil voltou com carga total à seu métier de origem, amúsica. Fez um show com 15 canções na madrugada baiana,começando com Time Will Tell, de Bob Marley, e fechando comToda Menina Baiana. E anunciou que lança depois do carnavalseu primeiro disco pós-ministério, Kaya ao Vivo, gravado nosdias 27 e 28 de dezembro no Teatro João Caetano.Você já nomeou todo o staff do ministério, menos um: não indicou o novo presidente da Fundação Palmares. Porquê?Está sendo complicado. Tinha 12 candidatos. Tem os lobbies, as torcidas, os pedidos, as indicações. Mas atésegunda, terça-feira, teremos um novo nome.Esse deverá ser um organismo muito importante na sua gestão?Sou negro, né?Acha que a fundação foi bem conduzida nos anos Fernando Henrique Cardoso?Eu não acho que tenhaque fazer uma análise desse tipo. Esse não é o ponto. A Dulce (Pereira, ex-presidente da Fundação Palmares) ficou lá umtempo... Bom, a fundação é muito frágil institucionalmente. Por causa do orçamento. Por ser a filha mais nova, sofre muito desseproblema. Mas a Dulce fez um trabalho razoável, um trabalho de aproximação com a África de língua portuguesa. Foi bastanteinteressante. A atuação da fundação é fundamental. Temos resíduos históricos muito complicados, a herança perversa daescravidão a enfrentar. Parece que o presidente quer criar uma secretaria para tratar das questões étnicas. Seria muito bom, e decerta forma desafogaria a Fundação Palmares.Entre aqueles 12 candidatos para a fundação, você não chegou a pensarem Carlinhos Brown? Ele desenvolve trabalho elogiado no Candeal.Cheguei a pensar no Brown. Mas não tive, na verdade, oímpeto de convida-lo. Por que não achei que ele quisesse. Mas é um nome muito interessante.Seria um gabinetebastante heterodoxo. O Waly Salomão também não tem experiência na política oficial.É, de fato.As reuniõescausariam espécie, assim como seu discurso de posse.O discurso foi a coisa que transitou com mais facilidade. Aindicação foi mais complicada que a posse. Ontem mesmo o ministro da Cultura do Chile me trouxe uma cópia que mandou fazerem espanhol daquele discurso. Ele gostou bastante.Bom, o novo governo completa um mês hoje. Você terá que lidarcom um orçamento modesto, o mesmo do ano passado.O ministério sempre teve orçamento reduzido. E vai continuarassim pelo menos até o ano que vem. O presidente me garantiu que ia se empenhar no sentido de aumentar o orçamento para oano que vem. E o Gushiken (Luiz Gushiken, ministro de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência daRepública) está preparando um projeto para destinar verbas de comunicação das estatais e também sua verba de marketing paraa cultura.E o projeto da loteria cultural?Esse é um projeto que daria pelo menos o dobro do orçamento de novosrecursos, em uma avaliação conservadora. Nos Estados Unidos, uma loteria financia a educação. Na Itália, financia patrimônio ecultura. Há outros países. O nosso projeto foi feito com base nos da Itália e Estados Unidos. Não apresentei ainda ao ministro daFazenda, mas isso vai ser feito. Além disso, tem a própria Lei Rouanet, grande fonte de financiamento da cultura. Criamos umgrupo de trabalho essa semana, com duas finalidades: permitir mais acesso das pequenas e médias empresas aos recursos dalei e, também, permitir mais acesso aos pequenos e médios projetos.Vai aumentar o montante da renúncia fiscal?Não, serão os mesmos 4%.Eu me referia ao teto que o governo libera anualmente para a renúncia fiscal.A gentequer aumentar, quer que seja pelos menos R$ 300 milhões esse ano. O presidente deve definir esse valor em março. Com a leiampliada para as pequenas e médias empresas, isso pode ajudar a aumentar a captação de recursos. Vai ampliar para osrecursos na ordem do microcrédito, do milhar, de 3 mil reais, 2 mil reais. A padaria, o pequeno comerciante poderá se valer dalei, que hoje sofre de uma verticalidade muito forte, das grandes empresas e dos grandes projetos. Mas isso não é uma tarefafácil. Se fosse fácil, já teria sido feita.Recentemente, o "Estado" publicou reportagem sobre o primeiro longa-metragem produzido no Piauí. É um Estado que só conseguiu fazer um longa depois de um século de cinema. O cinema não padece também de umaverticalidade?O cinema é o principal incentivado hoje. É o setor que mais usufrui das leis de incentivo.A Ancine ésatisfatória, na sua opinião?As últimas notícias que eu tive da Ancine davam conta que o grupo principal, o grupo dosgrandes produtores e cineastas, bem, eu ouvi dizer que parte desse grupo agora é favorável que a Ancine vá para o Ministério daCultura. A posição deles era levar a agência para o Ministério da Indústria e do Comércio.E qual é sua posição?Eunão sei, estou observando. Essa é uma decisão que caberá ao presidente. Evidentemente que será uma decisão instruída, nãome parece que o presidente Lula tenha o desejo de fazer uma escolha pessoal. Vai acolher uma decisão de consenso. É claroque a gente gostaria que a Ancine ficasse no ministério da Cultura. É uma área com viés cultural.Mas estou dando a minha opinião pessoal, como ministro. Estamos respeitando o conjunto das negociações.Vocêgosta da atuação do Gustavo Dahl à frente da Ancine?Não me dediquei a essa questão, do nome específico. Trato essaquestão como sendo de todos eles, do Dahl, do Cacá, do Barreto, do Nelson Pereira dos Santos. Foram os dois congressos decinema que deram origem a ela. Foi uma vontade deles, o Dahl entre eles. E ele vem trabalhando para representar essavontade.Você conhece nomes interessantes nessa área do cinema?Quero dizer, quando nomeou o Orlando Senna juntou duas coisas, um nome do PT e um nome de sua confiança na área. Temoutros nomes? O Carlos Augusto Calil, que trabalha com a Marta Suplicy em São Paulo, é um nome que você considera?Mas o Orlando não é do PT, não. Ele me disse que nunca foi. Trabalhou para o governo do PT, mas não era do partido.No momento, estamos nos debruçando sobre a questão da existência da Ancine, do paradeiro dela. Não tratamos de nomesainda. Que a Ancinea sirva não só ao grande cinema, mas ao cinema todo. A questão se ela deve servir ao cinema industrial ouao pequeno cinema também.Veja o índice de notícias sobre o Governo Lula-Os primeiros 100 dias e os ministérios

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