Gil quer implementar o Sistema Nacional de Cultura

Dos 37 milhões de habitantes do Estado de São Paulo, apenas 500 mil pessoas se utilizam de forma sistemática das chamadas "artes consagradas" (música erudita, artes visuais, museus, concertos de jazz e MPB). O dado é de Cláudia Costin, secretária de Estado da Cultura do Estado. O recém-criado Estado de Tocantins não consegue atrair patrocínios para projetos artísticos nem sequer das estatais ou empresas federais que detém as contas do governo. E o Brasil tem uma capital de Estado, Porto Velho (RO), que até hoje não possui um teatro.Esse cenário emergiu do encontro que teve o ministro da Cultura, Gilberto Gil, com 14 secretários da área cultural de capitais brasileiras, no centro de São Paulo. Gil esteve na cidade para debater a criação de um Sistema Nacional de Cultura (SNC), que teria por objetivo integrar as estruturas culturais de todo o território nacional, sanando deficiências, difundindo, trocando e promovendo a "inclusão cultural"."Ainda me impressiona a constatação de um terrível paradoxo: como um País tão rico e tão diverso em expressões culturais, valores simbólicos e celebrações lúdicas pode ter um Estado tão ausente, tão desarticulado, tão omisso e tão medíocre em suas intervenções no campo da cultura?", discursou o ministro.O ministro afirmou que a "culturalização" da política, dos negócios e da economia é o único meio para fomentar a paz e a diversidade e a construção de uma sociedade fraterna. "Se a cultura não for vista como um paradigma de paz, de respeito à diversidade, à alteridade, o respeito ao próximo, a alternativa será a radicalização fundamentalista; e essa traz, numa alternativa até suave, o nazismo", disse.Ele citou o ensaísta francês Dominic Wolton (autor de L?Autre Mondialisation) e sua tese de "identidades-refúgio". Segundo o ministro, organizações como a Al Qaeda "transvestem toda uma secular cultura muçulmana", para fazer prevalecer um desejo hegemônico. "Formam-se identidades para combater outras identidades, e isso é perigoso. Como o movimento negro, no Brasil, que é uma reivindicação legítima de compartilhamento, mas que às vezes traz no seu bojo o perigo da identidade-refúgio, o de se postar no mundo ?contra o resto?", afirmou.Gil disse que seu engajamento na questão da democratização da cultura se dá antes como cidadão do que como homem público. "Sou pai, tenho netos, breve terei bisnetos. Tenho uma responsabilidade genética para com o futuro. É o meu gen, é o gen dos Gils. É por eles também que estou lutando", afirmou.O anteprojeto de criação do Sistema Nacional de Cultura, segundo o MinC, já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e segue agora para o Senado Federal. Como parte das medidas que servirão para integrar os municípios e Estados, o presidente da Funarte, Antonio Grassi, anunciou que a Funarte está criando, em todo o País, conselhos para as áreas de Artes Cênicas, Visuais e Música. Cada conselho (um para cada região do Brasil) será formado por 5 pessoas de destaque no cenário cultural, escolhidos por representantes das secretarias de Cultura e de entidades de classe.A secretária de São Paulo, Cláudia Costin, disse que continua sendo um "nó" nas pretensões de integração cultural a questão do financiamento dos projetos. Ela disse que, hoje, a exclusão cultural é maior do que a social, porque também atinge as "elites incultas".

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