Gil no tempo

Caixa de DVDs reúne ficção, documentários e registros de shows que sintetizam sua obra

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2011 | 00h00

Num emocionado depoimento sobre o afoxé Filhos de Gandhy, Gilberto Gil disse sentir-se uma molécula dentro de um grande organismo - que são o canto, a dança e a tradição do candomblé da Bahia, que vieram da África. "O mais interessante é se diluir numa coisa muito grande que se estica para o passado e para o futuro", testemunhou o baiano. Gravado no documentário Filhos de Gandhy (2000), um dos sete DVDs da recém-lançada caixa A Conspiração de Gilberto Gil, o depoimento sintetiza também o espectro da obra de Gil como compositor, cantor e antena da raça.

Revolvendo o passado na terra natal, Ituaçu, e lançando ideias futuristas, os filmes reunidos na caixa dão uma significativa panorâmica sobre aspectos fundamentais de sua verve criativa e de suas influências, desde Luiz Gonzaga e João Gilberto até Bob Marley.

A "esticada" do tempo e do espaço também se expande para além da Bahia - onde o francês Pierre Verger (tema de outro belo documentário da coleção) se tornou um dos mais conceituados pesquisadores do candomblé e da cultura baiana - e da caixa. O registro do show Fé na Festa em outro DVD da Conspiração, gravado no Rio na noite de São João de 2010, é um complemento circular dessa trajetória. Ali acaba voltando a Gonzagão, sua primeira e maior influência, na celebração musical e no afago da memória em conversa com Dominguinhos - que ele aponta como o "primeiro-ministro" do baião, do período pós-monárquico do mestre de ambos.

"É porque a cada ciclo, a cada novo tempo vai-se manifestando mais claramente a força, o caráter pioneiro, inaugural daquilo. Comparado com a pletora de sonoridades, de timbragens, de mixagens rítmicas e melódicas, etc., que essa quantidade de coisas foi proporcionando nas últimas décadas, você vê como aquilo ali tem uma profundidade enorme, uma dimensão extraordinária. É por isso que a gente volta sempre a ele, não tem como", diz Gil por telefone, de Salvador.

"O modo de cantar, a soltura do canto, a mistura de elementos africanos, europeus, indígenas, enfim, que você encontra no timbre da voz dele, naquela guturalidade extraordinária, no uso abundante dos dizeres nordestinos, no uso próprio da palavra para cantar." (Curiosamente, Jorge Amado diz algo semelhante sobre a força afro-euro-indígena na música da Bahia em um dos filmes da caixa.) Voltando a Luiz Gonzaga, Gil continua: "Então é uma riqueza que você vai descobrindo camadas e camadas novas, que já estavam ali, evidentemente, mas que são reveladas exatamente pela exposição a que somos submetidos. É uma riqueza que vai sendo descoberta, como se aquilo fosse um banco, que vai rendendo juros".

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