Gil faz balanço do Ano do Brasil na França

O Ministro da Cultura, Gilberto Gil, mostrou alguma ironia ao encerrar hoje em São Paulo, no Sesc Anchieta, o Ano do Brasil na França. Seus alvos foram a mídia e também o Ministério da Fazenda e o do Planejamento.Ao anunciar o balanço dos eventos culturais brasileiros que invadiram diversas cidades francesas durante todo o ano e mobilizaram 15 milhões de espectadores naquele País, ele disse: ?Os números são eloqüentes, falam em alto e bom som. Para o Ministério da Fazenda, o Planejamento e a mídia, que gostam dos números, da chamada equação custo-benefício. Valeu a pena? Valeu muito a pena?, alfinetou.Os investimentos foram da ordem de R$ 61 milhões, com R$ 41 milhões saídos diretamente dos cofres do governo e R$ 20 milhões vindos da iniciativa privada. O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que representou no encerramento o ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, disse que o evento cuidou de ?mostrar aos fenícios? a importância da cultura.Gil anunciou que o sucesso do Ano do Brasil na França já motivou convites de outros três países, Itália, Espanha e Canadá, para a realização de jornadas semelhantes com a cultura brasileira em suas cidades. Também está em conversações um Ano da França no Brasil, que seria realizado em 2008. O ministro ainda conclamou ?o próximo governo que vier? a continuar apostando no projeto de exportação da cultura brasileira.Números marcam sucesso do evento?Num país de 60 milhões de habitantes, 15 milhões terem estado envolvidos é uma proeza?, afirmou Gil. O Embaixador da França no Brasil, Jean de Gliniasty, divulgou números que consolidariam esse sucesso, como por exemplo o crescimento de 20% nas matrículas nos cursos de português em seu País e de 27% nas viagens aéreas da França para o Brasil. Os negócios também foram três vezes maiores entre os dois países do que no ano anterior.Segundo o comissário do Ano do Brasil na França, André Midani, o sucesso do megaevento foi inequívoco. Ele dispôs no palco do Sesc Anchieta uma pilha de mais de um metro de altura de cópias de reportagens e artigos publicados na imprensa francesa durante o ano sobre os eventos. Admitiu, no entanto, que na imprensa nacional a repercussão não foi tão entusiasmada. ?A imprensa brasileira foi muito tímida (na cobertura dos eventos). Creio que foi porque tivemos uma série de problemas políticos esse ano, que passaram a concorrer com a notícia artística na mídia brasileira?, ponderou.O ministro da Cultura da França, Renaud Donnedieu de Vabres, que era aguardado para o encerramento, não pôde viajar ao Brasil e fez-se representar pelo embaixador Gliniasty. Além dele, participou o presidente do Comissariado Francês, Jean Gautier.Ao final, Gil fez um pequeno desabafo meio transversal sobre críticas que tem recebido na condução do MinC. ?Sei que decepcionei alguns fãs e algumas pessoas quando resolvi assumir o Ministério da Cultura. Muita gente não aprovou e continua não aprovando?, disse. ?Saímos de uma cultura de auto-referência, da produção artística que é engavetada, contemplada apenas no espelho. É preciso que alguém faça o deslocamento?, continuou.Para exemplificar o que considera sua desenvoltura para lidar com as questões burocráticas, ele lembrou de uma situação do passado. ?Sou formado em 1964, no ano da implantação da ditadura. Tive de fazer um difícil, metafórico discurso de formatura para driblar a censura. Me formei em administração de empresas e sou músico. Então, para mim não tem nada de estranho (a organização burocrática)?, afirmou.Gil também se comprometeu, a partir de uma pergunta de uma pessoa da platéia, a batalhar pelo repatriamento da obra de Villa-Lobos que está hoje em posse da Biblioteca Nacional da França. ?É interessantíssima a idéia?, afirmou.

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