Gil Evans inédito

Ele é um protagonista da história do jazz na segunda metade do século 20. Como líder de bandas, arranjador e compositor, Gil Evans (1912-1988) imprimiu sua marca não só em clássicos, como as gravações Miles Ahead e Birth of The Cool, com Miles Davis, mas também em colaborações que podem e devem ser garimpadas na discografia de artistas diversos, como Astrud Gilberto e o vibrafonista Teddy Charles.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2011 | 00h00

Quando morreu em 1988, não deixou apenas saudades entre os fãs que, como esta repórter, frequentavam suas segundas-feiras cativas no finado clube Sweet Basil, cenário das sessões musicais meio caóticas, em que Evans, com a bandana colorida amarrando a cabeleira branca, recebia um desfile de solistas ilustres e dava chances a músicos jovens.

Gil Evans deixou também um baú de música inédita. A hibernação de suas partituras, no apartamento de Miles Evans, o filho caçula que leva o nome do padrinho famoso, foi interrompida por Ryan Truesdell. Se há justiça musical, além da poética, Truesdell não poderia ser um explorador mais apropriado para a descoberta. Em 2004, ele terminou um mestrado de composição e regência no New England Conservatory of Music, onde estudou com o grande compositor e arranjador Bob Brookmeyer, ex-colega de Gil Evans na orquestra de Claude Thornhill. Além de ter sido assistente de Brookmeyer até o ano passado, Truesdell trabalha há oito anos com Maria Schneider, herdeira musical e ex-assistente de Gil Evans. Truesdell começou como assistente de Schneider e passou a coprodutor de suas gravações que ganharam dois prêmios Grammy. Na estrada, usa o chapéu de tour manager da Maria Schneider Orchestra.

Mas o tempo anda apertado para Ryan Truesdell - "Durmo, acordo, almoço e janto" mergulhado no Gil Evans Project. A exemplo de Schneider, que usa o website da Artists Share para gravar e se relacionar com seu público, Truesdell inaugurou o www.gilevansproject.com, onde celebra a música de Evans e levanta recursos para comemorar o centenário do compositor em 2012 com a gravação de uma seleção das partituras inéditas que descobriu. Ele quer atrair o público para participar do projeto, não somente através de contribuições, mas acompanhando ensaios on-line e testemunhando a evolução da criação que vai resultar no CD comemorativo.

Um dos objetivos de Truesdell é mostrar ao público como a obra de Gil Evans é relevante antes e continua além do trabalho mais famoso dele com Miles Davis. O argumento foi mais do que comprovado em dois concertos numa noite de março, na Igreja de São Pedro, em Manhattan. Truesdell regeu a orquestra da Eastman School of Music e contou com solistas estelares como o cantor Andy Bey, o saxofonista Phil Woods e o pianista Frank Kimbrough. Nesta entrevista exclusiva ao Estado, Truesdell fala da emoção de descobrir música inédita de seu ídolo.

Você tinha alguma ideia de que encontraria tanto material entre os arquivos de Gil Evans?

Não, de forma nenhuma. Eu comecei o projeto porque adorava a música do Gil e procurava partituras de gravações que estariam fora de circulação. Mas acabei encontrando 50 peças que nunca foram gravadas e cobrem toda a carreira dele. Ele realmente escrevia devagar, mas acho que o material inédito se deve em parte aos limites do processo de gravação na época. Ele era chamado para arranjar um álbum para um cantor ou cantora, por exemplo, e escrevia mais do que cabia no disco.

Qual a importância do material que você encontrou?

Nós vamos gravar uma seleção das peças para comemorar o centenário do Gil, em maio de 2012. Mas, para mim, é muito mais do que uma data. É uma chance de mostrar ao público, mesmo os admiradores, que o Gil Evans é um artista mais amplo do que sua associação com Miles Davis sugere. Os dois tiveram uma grande parceria, mas o público tende a ver o Gil apenas no contexto do período com o Miles. Há o trabalho maravilhoso com a Claude Thornhill Orchestra. E antes, disso, na década de 30, quando ele tocava e fazia arranjos na banda do crooner Skinnay Ennis. E há também os arranjos belíssimos que ele criou para cantoras como Lucy Reed e Helen Merrill e Astrud Gilberto. Fora o que ele escreveu para gravar com seus músicos. O Gil ainda é mais lembrado como arranjador, mas ele escreveu canções originais ao longo de toda carreira.

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