Gil e sua celebração obrigatória

Moleque de tudo, Gilberto Gil colocou na cabeça que seu negócio era fazer qualquer coisa parecida com a mágica com a qual vira Jackson do Pandeiro e Almira Castilho enfeitiçando uma plateia de Salvador. "Nunca mais me esqueci daquele cena", fala o baiano. Foi muita água até chegar aos 70 anos e, agora que chega, pega o expresso na linha inversa à que conduz seu reflexo Caetano Veloso. Gil não teme caminhar para trás, desde que a conotação a isso não seja de retrocesso. Vê em Caetano e Chico exemplares de como manter a linguagem em evolução, mesmo na fase em que a vida deixa de dar e começa a levar. Seus passos em outra direção não são menos nobres. Sem querer dar mostras de energia criativa, veste as sandálias de couro e senta-se no centro do palco com o velho violão.

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h10

Gil faz hoje a última apresentação de uma rápida temporada que passou por São Paulo para mostrar seu comemorativo Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo, com a Orquestra Sinfônica da Bahia. Depois de ver o show, Caetano o resumiu bem ao encontrar o amigo no camarim. "Tudo gira em torno do violão."

Na última quinta, o baiano sentiu a voz antes de subir ao palco, em Brasília. Cancelou a apresentação e prometeu voltar semana que vem para pagar sua dívida com os brasilienses. Os shows em São Paulo, até o fechamento desta edição, estavam confirmados pela produção. Flora Gil, sua mulher e empresária, disse no Twitter que o cantor "ficou com laringite por conta da mega, blaster secura do Planalto Central!"

Gil chega à frente de duas formações que sustentam a rudez de suas composições sem sublimar seu violão. Uma inédita, Máquina de Ritmo, abre a noite, e outra nova, Futurível, vem mais à frente. Dois nomes regem as OSBA, Carlos Prazeres e Jaques Morelenbaum. Saudade da Bahia lembra Caymmi; Outra Vez, Jobim. Gonzagão aparece em Juazeiro e Jimi Hendrix, uma das bases que usaria para erguer a Tropicália, em 1967, ao lado de Caetano Veloso, é evocado com uma versão para Up From the Skies. Um dos grupos que se alternam entre cordas e violão tem, além de Morelenbaum ao violoncelo, Nicolas Krassik no violino, o filho Bem Gil no segundo violão e Gustavo di Dalva na percussão.

Não Tenho Medo da Morte reconduz à cena o tema atual de Gil. A despedida de um homem, como diz em entrevistas, não deve ter a carga dramática que aprende-se dar ao dia final. Por isso, em certo momento, faz todos os músicos que o acompanham ficarem em silêncio para cantar sozinho, enquanto dá batidas fúnebres no tampo de seu violão: "Não tenho medo da morte / mas sim medo de morrer / qual seria a diferença / você há de perguntar. É que a morte já é depois / que eu deixar de respirar / morrer ainda é aqui / na vida, no sol, no ar." Vivo, Gil é uma celebração obrigatória.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.