Gianfrancesco Guarnieri estréia nova peça

Ele está de novo enamorado do teatro. Aos 67 anos, depois de um tempo de ceticismo e desencanto com o palco, Gianfrancesco Guarnieri retorna entusiasmado feito adolescente. O que aconteceu? O encontro com o encenador carioca Marcus Vinícius Faustini, de 29 anos, e a amizade que daí resultou. Impulsionado pela montagem de Eles não Usam Black-Tie, assinada por Faustini, Guarnieri mais uma vez instalou-se em sua mesa de trabalho. Surgiu assim a A Luta Secreta de Maria da Encarnação, primeiro texto do artista desde 1995, quando escreveu e atuou em A Canastra de Macário. Para dirigir a nova peça, como não poderia deixar de ser, Guarnieri convocou o jovem amigo Faustini. A Luta Secreta, cuja produção, patrocinada pela Petrobrás, é fruto de parceria do Instituto Takano de Projetos com a Secretaria de Estado da Cultura, transformou-se em um espetáculo de vastas proporções: são 32 atores, orçamento de R$ 1 milhão, orquestra com 30 integrantes. O pacote prevê ainda um livro e a gravação de um CD. O musical, que teve canções compostas por Renato Teixeira, será apresentado para convidados hoje, no Teatro Sérgio Cardoso. O público poderá vê-lo a partir de sexta-feira. Maria da Encarnação, a protagonista, é uma mulher do povo que, aos 80 anos, evoca a memória do primeiro marido e fala a esse fantasma sobre os descaminhos pelos quais a vida a impeliu. No trajeto que vai da era de Getúlio à de Fernando Henrique, Encarnação, vítima de adversidades, perde duas filhas, que passa a procurar obstinadamente. Brincando com o melodrama, ao seguir a trajetória dessa mulher, Guarnieri mapeia o percurso do Brasil no século 20. O dramaturgo, que conquistou lugar na história com obras do calibre de Black-Tie, A Semente e Castro Alves Pede Passagem, não disfarça o entusiasmo pelo trabalho do diretor Faustini: "Eu andava triste com teatro", declarou à Agência Estado, "e recebi um sopro de vida. Escrevi a peça em intensa comunicação com ele, mandava-lhe cenas para ler, ele comentava." Faustini de imediato começou a apresentar a Guarnieri idéias para a encenação. "Para mim, isso foi ótimo", lembra o dramaturgo. "Estou aprendendo com ele, temos uma interação rara nos dias de hoje, algo que recorda os tempos do (Teatro de) Arena." O artista diz que só conseguiu trabalhar assim com Augusto Boal e os Flávios - Império e Rangel. "Faustini é uma recriação do espírito do Arena. Só não foi do grupo porque não era nascido", arremata, rindo. O alvo dos elogios, carioca do subúrbio de Santa Cruz, pai de uma filha nascida em 2000, chegou aos palcos participando de grupos amadores e estudantis. Formou-se em filosofia pela UERJ e cursou artes cênicas na tradicional Escola Martins Pena, onde foi aluno de Luís Mendonça, mestre da arte popular. No teatro que faz, privilegia temas e textos brasileiros. O gosto pelo palco vem de família. O avô, Severino Alves Pequeno, era um dos principais bonequeiros da Paraíba. "Não sabia disso", diz. "Descobri quando já fazia teatro e foi um encantamento." O encenador tem um ideário: "A questão do Brasil sempre esteve muito próxima de mim, tanto por essas origens quanto pelo meu modo de pensar. O que me levou à atividade cultural foi a formação política nos anos 80." Além do interesse adquirido cedo por teatro brasileiro, Faustini nunca teve dúvida de que sua meta era a direção. "Não sei explicar por quê, mas sabia que seria encenador, não ator." Formou-se em 1996 pela Martins Pena e continuou a atuar no teatro militante. Em 1999, realizou a primeira experiência profissional, Capitu, bem-sucedida adaptação de Dom Casmurro, de Machado de Assis. "Eu me considero um diretor em formação, mas tenho paradigmas para meu trabalho. Um deles é discutir nossa identidade, pensar em um teatro que expresse isso. Outro é tentar, através do teatro, entender a realidade brasileira." Afeto - Sobre Guarnieri, Faustini declara: "Encontro afetividade em suas peças. Ele cria personagens com os quais é possível nos identificarmos, oferecendo a oportunidade de entender um país por sua dramaturgia." Ele diz que foi muito difícil montar A Luta Secreta. "Fiquei nervoso em alguns momentos. Mas sou pretensioso. Resolvi que ia fazer. Afinal, essa pretensão é que me levou ao teatro." Embora seja uma superprodução, "é só mais uma peça", observa Faustini. "E uma peça não pode ser a medida da vida." Apesar da grandiosidade do projeto, "é uma peça específica, com características próprias. Ao perceber isso, comecei a entender o mecanismo dela. E então o trabalho se tornou imensamente prazeroso". Encabeçam o elenco Suely Franco e Vanessa Gerbelli, que vivem Maria da Encarnação na velhice e na juventude, além de Ewerton de Castro, Ênio Gonçalves, Chico Martins e Cláudia Mello. A montagem tem cenografia e figurinos de J.C. Serroni, direção musical de Nathan Marques e a regência de Roberto Sion que estará à frente da Orquestra Jovem Tom Jobim do Estado de São Paulo. Trabalho marca recomeço - Gianfrancesco Guarnieri escapou por pouco de ver sua nova peça, que estréia hoje para convidados no Teatro Sérgio Cardoso, atrelada aos geralmente desastrados festejos dos 500 anos do Brasil. "Fui convidado a escrever a peça para aquela ocasião", lembra ele. "Disse que tinha a maior desconfiança dessas comemorações, mas me interessava criar um texto sobre as lutas do povo brasileiro." A idéia foi aceita e Guarnieri elaborou uma sinopse. "Por sorte", ri o ator/dramaturgo, a Petrobrás, consultada sobre um possível patrocínio, informou que a verba, solicitada para 2000, poderia ser concedida, mas em 2001. "Com isso, fiquei liberado dessa coisa do Descobrimento e pensei que Maria da Encarnação deveria fazer isso: encarnar o povo. Pensei em Viva o Povo Brasileiro, do João Ubaldo Ribeiro, livro que adoro, e decidi trabalhar nessa direção, mostrando a vida de uma mulher do povo em um grande painel." Só mesmo o melodrama, o mais popular dos gêneros teatrais, poderia comportar a história dessa camponesa nascida nos anos 20, que tem os pais mortos por cangaceiros, é estuprada e expulsa da casa em que a acolhem, torna-se prostituta, viúva precoce, mãe de uma guerrilheira, mulher de um dedo-duro informante dos militares. A personagem não tem nenhuma analogia com Mãe Coragem, a obra-prima de Bertolt Brecht, informa Guarnieri. "Pelo fato de as duas serem mães, acho que essa associação é automática. Mas Coragem e Maria são muito diferentes em temperamento. E as duas peças são bem distintas. O que eu quis fazer foi observar, nesse texto, de que maneira a história do Brasil se entrosava com a vida de Maria da Encarnação." O dramaturgo é enfático quando fala da importância do encenador de seu novo texto na criação da obra: "Se eu não tivesse encontrado (Marcus Vinícius) Faustini, não teria tido ânimo de escrever. Em nossa primeira conversa, quando ele me explicou por que queria montar Black-Tie, pensei: ´Esse cara é diferente, o discurso dele não é comum.´ E fiquei felizinho. Havia encontrado um excelente interlocutor." Durante a temporada de Black-Tie em São Paulo, Guarnieri e Faustini tiveram a oportunidade de intensificar o contato e aprofundar os vínculos. "Percebi que ganhava não só um diretor, mas um amigo", diz o escritor. "E eu me identifico com o teatro que ele faz. É de equipe, tem as bases do teatro de grupo, no qual eu acredito." Para Gianfrancesco Guarnieri, que nasceu em Milão, em 1934, está no Brasil desde 1936 e deixou uma marca nítida no cinema, no teatro e na televisão brasileiros, a descoberta de uma nova geração que sabe dialogar com a herança do passado é "um clarão que se fez". O veterano artista pensa em voltar-se mais para a dramaturgia. "Mas nesse espírito de equipe, que me faz abandonar o desencanto e retornar ao início. Pois isso é o que representa o que esse menino, o Faustini, fez por mim." Está ajudando um dramaturgo inscrito na história do teatro brasileiro a recomeçar.

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