Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Giancarlo Giannini é homenageado em São Paulo

Ator italiano participa do 8º Festival Pirelli de Cinema Italiano no Brasil, que começa na quinta e segue até 13 de dezembro

FLAVIA GUERRA - O Estado de S.Paulo,

26 de novembro de 2012 | 02h12

A primeira viagem de Giancarlo Giannini ao Brasil estava marcada há 50 anos. Aos 18 anos, formado em técnico em eletrônica, deveria vir ao País para trabalhar em um dos primeiros satélites artificiais da história, "em uma cidade no meio do nada", contou o ator ao Estado em conversa no último sábado. Mas a viagem foi adiada. "Tinha de servir o exército. Mas acabei sendo dispensado. Isso porque eu tinha uma avó. E descobri que, por regra quem era o neto mais velho não servia. Acabei ficando com um ano livre. Foi então que um amigo sugeriu que fosse para a Academia. Pensei que era a militar e me disse: Por que não? Só que depois descobri que era a Accademia d'Arte Drammatica de Roma. Um senhor acabou me preparando, passei no teste e ganhei uma bolsa. Tudo começou como brincadeira. E aqui estou até hoje. Brincando."

Um dos últimos remanescentes da esquadra de ouro dos grandes intérprete italianos, Giannini vem ao País para ser homenageado no 8º Festival Pirelli de Cinema Italiano no Brasil, que começa na quinta e segue até 13 de dezembro.

Antes, nesta segunda-feira, 26, às 11h30, participa de bate-papo com o público no Museu da Imagem e do Som, quando ocorre também o anúncio do protocolo para o Fundo de Coprodução Brasil-Itália. Além de filmes inéditos, o festival traz uma retrospectiva rara com oito de seus mais de 100 filmes - todos em película restaurada, vindas diretamente da Cinemateca de Roma. "Já vim ao Rio algumas vezes, mas muito rapidamente. É a primeira vez em São Paulo. E sinto como se fosse a primeira vez de todas. Finalmente, tanto tempo depois, vim ao Brasil", brincou.

Giannini, que além de ator é diretor, produtor e professor do curso de recitação no Centro Sperimentale di Cinografia de Roma, onde ensina "humanística alegria e fantasia", conversa com o público na Faap na quinta, às 11h, após a exibição de Pasqualino Sete Belezas, às 9h30, que lhe rendeu indicação ao Oscar em 1977 e a primeira nomeação de uma mulher a melhor direção, a italiana Lina Wertmüller, que também o dirigiu em Um Destino Insólito (1974), Mimi - O Metalúrgico (1972) e Amor e Anarquia (1973).

É rara oportunidade para quem, sobretudo os mais jovens, o conhece mais como os vilões da franquia 007 (Cassino Royale, de 2006, e Quantum of Solace, 2008), de descobrir joias como as de Wertmüller e ainda Ciúme à Italiana, de Ettore Scola (1970), O Inocente (de Luchino Visconti, 1976), Me Manda Picone (de Nanni Loy, 1984), O Mal Obscuro (de Mario Monicelli, 1990).

Sobre, cinema, alegria e morte, ele falou ao Estado.

É interessante que o público de São Paulo possa ver seus filmes clássicos na tela grande e seu novo longa, Ti Ho Cercato in Tutti Necrologi (Te Procurei em todos os Necrotérios). Como foi voltar a dirigir depois de mais de 20 anos? Sua primeira direção foi Ternosecco em 1987, não?

Giancarlo Giannini - Me alegra muito poder mostrar meus filmes ao público brasileiro. As novas gerações nunca os viram no cinema. Voltei ao set só agora porque senti a necessidade de contar uma história. Gostaria de poder mostrá-lo aqui, mas o inscrevi no Festival de Berlim e, até que saia a resposta, não posso exibi-lo.

Você dirigiu e atuou?

Giancarlo Giannini - Rodei no Canadá e nos EUA. Sou produtor, diretor e ator. É inspirado em uma história que ouvi na África há muito tempo. Sobre um que se faz caçar. É uma viagem quase mística. O protagonista é um imigrante italiano no Canadá e dirige um carro fúnebre, transporta corpos para os necrotérios. Até que um dia dá uma carona a uma mulher e encontra o amor. Ainda que não seja mais tão jovem, tem uma energia absurda. É uma viagem mística em direção à redenção. Ao final, ele reencarna em uma espécie de paraíso.

Você se considera um místico?

Giancarlo Giannini - Sim. Acredito em Deus. Não tenho medo nenhum da morte, assim como o personagem do filme. A morte existe. Assim como a vida. O filme é a luta do bem contra o mal. Ele tem uma força vital incrível e leva a vida no limite, vira uma caça humana. Ainda que o filme tenha cenas de perseguição e seja muito violento, é sobre a experiência mística da vida. É sua viagem em direção à vida após a morte. Temos de ver a morte como uma descoberta. E é por isso que quis terminar o filme no Arizona, onde a natureza é tão forte que chega a ser violenta. E divina.

Assim como a vida e a morte.

Giancarlo Giannini - Sim. É um jogo que eu quis inventar para mim. E se o público conseguir acolher esta ideia do divino que há na natureza, sentir a mesma alegria de viver que o personagem, apesar das dificuldades, vou estar satisfeito.

Você ensina alegria e fantasia em Roma. Como nasceu a ideia?

Giancarlo Giannini - Hoje as pessoas têm vergonha de falar em fantasia. É preciso ensinar isso ao jovens. Porque muitas vezes a escola, racional, fecha nossos olhos. No começo ninguém entendeu nada das aulas. Hoje funciona. O ator tem que contar com alegria e fantasia suas histórias. Todos temos de fazer isso. Porque somos todos atores. Não somos gênios como Michelangelo, Mozart, mas temos a possibilidade de estudar as maravilhas do mundo e do novo. E recomeçar sempre. Se você tiver de fazer um prato de espaguete, faça-o melhor possível. A vida é difícil, mas é fantástica. Não é preciso penetrar no mistério, apenas crer nele. Há pequenas coisas que são mágicas. Das borboletas às grandes obras arquitetônicas.

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