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Giacometti o existencialista no divã do psicanalista

O escultor suíço é analisado em livro antes da mostra que virá a SP e BH em 2012

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Após a leitura de O Ateliê de Giacometti, de Jean Genet, Proença concluiu que o dramaturgo identificou na obra do escultor "a solidão, o recolhimento a si mesma da escultura". Ao mesmo tempo presente e ausente, o lugar dessa escultura, segundo o psicanalista, "é entre os mortos". De preferência entre as figuras hieráticas da arte do antigo Egito, uma das fixações de Giacometti ao lado da escultura africana, ambas avessas ao ilusionismo da perspectiva ocidental consagrada pelos renascentistas. É justamente a inércia dessas figuras e o vazio existencial que elas inspiram que levaram Proença a escrever Em Torno de Alberto Giacometti, Arte, Ética e Psicanálise, que a editora Companhia de Freud coloca nas livrarias neste fim de semana.

Apesar de ser um selo dedicado a profissionais do ramo, como sugere o Freud agregado ao nome da editora, o livro não usa o jargão psicanalítico. Evoca, sim, aqui e ali, a tese de Lacan sobre a dignidade dos objetos, mas por uma boa razão: Giacometti falava com frequência da necessidade de valorizar, indiferentemente, os objetos e os marginais, enfim, tudo o que a média das pessoas julga desprezível no mundo. O escultor, nunca é demais lembrar, era amigo de prostitutas, mendigos, homossexuais e ladrões como Genet. Poderia ter o melhor dos estúdios, mas se manteve fiel ao velho ateliê da rua Hippolyte-Maindron, perto de Montparnasse, onde viveu e trabalhou mais de 40 anos em meio ao pó, do qual recusava se livrar - para ele, constituinte de seu mundo tanto quanto os amigos Beckett e Sartre. Nem mesmo a morte foi capaz de acabar com essa relação. Sua mulher Annete morou lá até 1972, levando pedaços das paredes de lembrança quando os locatários pediram o imóvel de volta.

Existencialista, por certo, Giacometti cultuava os objetos não com um olhar fetichista, mas com um espanto de quem via o mundo sempre pela primeira vez, não conseguindo retratá-lo como seu pai pintor queria - ele sempre teve problemas com a dimensão do mundo e o tamanho de suas esculturas, que sugeriam alucinações gulliverianas (ou eram enormes ou minúsculas). Quanto às pessoas, não era a beleza consagrada que o atraía. Foram a fisionomia rude e a calvície de Genet que o impressionaram, a ponto de pedir ao escritor, num café, em 1954, que se tornasse modelo para uma série de retratos. Foram 19 dias de intenso sofrimento para ambos. Giacometti desenhava e rasgava esboços. O crítico James Lord, que também posou para o escritor e escreveu um livro sobre ele, Um Retrato de Giacometti (Editora Iluminuras, 1998), conta que ele batia os pés, chamando de abominável sua incapacidade de reproduzir o que via - e seu drama não era de natureza realista ou naturalista, mas um conflito de ordem que interessa particularmente aos psicanalistas, o da contínua destruição e recomeço de um trabalho de Sísifo que tenta registrar impressões instantâneas da realidade.

Para Paulo Proença, sua descoberta de Giacometti, também estudado pela esposa do psicanalista, foi um daqueles encontros que definem a vida de uma pessoa, "primeiro, porque ele nos ensina que é preciso valorizar o ordinário, depois por nos apresentar um mundo todo transfigurado". Quando o escultor afirma não poder reproduzir o que vê, diz Proença, ele não se diz incapaz de ser fiel ao modelo que está à sua frente. Ele assume, sim, o confronto "com o estranho, o desconhecido", o que impôs, ainda segundo o psicanalista, esse trabalho de Sísifo ao artista. Todo objeto, todo rosto, era único e insubstituível para Giacometti, observou Genet: "A arte de Giacometti será uma arte de mendigos superiores, a tal ponto puros que apenas o reconhecimento da solidão de cada ser e de cada objeto os uniria."

Genet poderia estar falando por metáforas, mas, de fato, Giacometti caiu de amores por uma velha mendiga esfarrapada e de quistos salientes na cabeça - para ele, a mais bela das mulheres, segundo o escritor. "Esse belo de que nos fala Genet traça caminhos totalmente opostos ao conceito de belo apenas estético, por assim dizer, um belo de ordem moral", observa Proença, evocando ainda a observação da psicanalista francesa Sylvie Le Poulichet sobre o caráter "contagioso" das esculturas do artista suíço, que faria o espectador confrontar a tensão entre o gigantesco e o minúsculo, envolvendo-o no vazio que elas sugerem. Sartre, igualmente, viu em sua escultura a tradução da condição existencial do homem entre o ser e o nada, representada por figuras filiformes na fronteira do desaparecimento.

É justamente esse aspecto singular da obra de Giacometti que interessa ao livro do psicanalista Paulo Proença. Giacometti abjurou sua filiação ao surrealismo também porque o mundo real era estranho para ele. Demasiado estranho.

EM TORNO DE ALBERTO GIACOMETTI, ARTE, ÉTICA E PSICANÁLISE

Autor: Paulo Proença

Editora: Companhia de Freud (233 págs., R$ 35)

TRECHO

"Giacometti é amante da arte egípcia, africana, enfim, da arte que

toma o caminho inverso a toda a ilusão da perspectiva...

... na pintura ocidental. Giacometti defende a ideia muito interessante de que a arte africana, por exemplo, é "muito mais próxima da real visão que se tem da realidade" do que a maneira com que a arte ocidental concebe a visão, com seu volume tridimensional no espaço. Esse volume é falso, ilusão. Não que ele não exista, mas porque, para ele, é falseado e determinado pela visão geometral da perspectiva desde a Renascença."

QUEM É

PAULO PROENÇA

PSICANALISTA

Carioca, filho do pianista Miguel Proença, é um dos profissionais da área cujo amor pela cultura o fez analisar a literatura de Clarice Lispector, além da arte de Giacometti.

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