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Nova biografia do pintor holandês não aceita versões anteriores de sua morte nem do episódio da automutilação

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h10

Autores da biografia do pintor Jackson Pollock, maior nome do expressionismo abstrato, inédita no Brasil e ponto de partida do filme Pollock (2000), os advogados americanos Steven Naifeh e Gregory White Smith, premiados com o Pulitzer, resolveram remexer nas cartas da família e dos amigos do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890). O resultado dessa pesquisa de dez anos é a volumosa biografia Van Gogh, investigação detetivesca da dupla também nos arquivos dos parentes do artista para derrubar mitos fortalecidos por biografias anteriores - e, naturalmente, por várias versões cinematográficas de sua vida, da mais popular, dirigida por Vincente Minnelli em 1956, à mais ambiciosa, realizada por Maurice Pialat em 1991 (leia texto na pág. D9). Sobre a biografia, Steven Naifeh concedeu uma entrevista ao Caderno 2.

A hipótese dos biógrafos sobre a morte de Van Gogh descarta definitivamente a versão oficial de suicídio. Para eles, o pintor morreu de um tiro disparado por um dos dois irmãos adolescentes da família Secrétan, conhecidos do pintor. Arruaceiro, imprudente e também inclinado a beber, René, que andava sempre acompanhado de sua pistola calibre 38, vivia pregando peças no pintor, a ponto de o deixar furioso. Outro mito desfeito pelo biógrafo diz respeito à orelha decepada do artista. Ele não a cortou para dar de presente a uma prostituta, mas por desespero. Sentindo-se abandonado por Gauguin em Arles, delirante e provavelmente bêbado, ele teria usado a navalha para se punir, como nos rituais de autoflagelação a que se submeteu durante toda sua vida.

Revendo o que para outras biografias é certo, a sua concluiu que Van Gogh não cometeu suicídio. Hollywood contribuiu para esse mito, reduzindo o pintor ao estereótipo do insano que atenta contra a vida por ser depressivo?

Não resta dúvida que Hollywood fez do suposto suicídio de Van Gogh a parte central do que imaginamos conhecer a seu respeito. O best-seller de Irving Stone, Lust for Life - e o filme nele baseado -, transformaram o suicídio em algo real - com a tela Campo de Trigo com Corvos aparecendo como a última pintura e os pássaros circulando sobre sua cabeça enquanto ele dá um tiro e agoniza. Mas o livro de Stone era um romance e, claro, ele inventou diálogos e incidentes. Eu e Gregory achamos que um tiro acidental seria uma explicação mais razoável, dado o peso da evidência. E, no fim do livro, apresentamos essa evidência para que o leitor tire sua conclusão.

Em seu filme sobre o pintor, o francês Maurice Pialat insinua um relacionamento homossexual entre Van Gogh e Gauguin. Você diria que Van Gogh cortou a orelha para impressioná-lo, ao se sentir rejeitado por Gauguin?

Há rumores, de fato, de que Van Gogh e Gauguin teriam pelo menos uma relação homossexual latente. Mas podemos dizer, sem dúvida, que Van Gogh era completamente heterossexual, sem o mínimo traço de bissexualidade. Seus únicos relacionamentos, infelizmente, foram com prostitutas. Quando Van Gogh cortou a orelha, ele, efetivamente, estava mandando uma mensagem para Gauguin, que acabara de comunicar sua desistência do acordo artístico feito em Arles. Mas, ao se mutilar, Van Gogh não estava expressando a agonia da rejeição romântica, e sim a agonia da solidão desesperada que ele conheceria quando Gauguin fosse embora. E é importante frisar que esse episódio ocorreu durante um surto psicótico do pintor, o que não podemos entender como um ato racional.

Sua biografia se diferencia das demais por não associar loucura e criação artística. Por que os biógrafos mais antigos teriam insistido em confundir a lucidez pictórica de Van Gogh com um produto de doença mental?

Como Van Gogh era mentalmente doente, suas pinturas pareciam feitas por um louco, aos olhos de seus contemporâneos. Não podemos imaginar hoje - quando o modernismo transformou nossa visão de arte e suas pinturas já fazem parte do imaginário coletivo - quão excêntricas pareciam suas cores na época em que viveu. De fato, as pinturas de Van Gogh são extremamente lúcidas. Ele pintava rápido, furiosamente, mas toda combinação cromática e toda pincelada resultavam de um intenso e cuidadoso projeto. Vemos isso hoje, mas o fato é que a loucura era uma explicação mais fácil para seus primeiros biógrafos.

Lendo a biografia, suspeita-se que a dinâmica familiar teve um peso considerável nessa loucura, considerando o comportamento da mãe de Van Gogh e sua rejeição ao filho. Quais foram as fontes, além das cartas, que vocês usaram para retratar a família?

Na reconstrução da dinâmica familiar de Van Gogh, usamos diversas fontes além das cartas familiares, como as cartas de amigos da família, as memórias da viúva de seu irmão Theo, uma importante entrevista de sua irmã Lies, que parece ter sido ignorada pelos acadêmicos, além da biografia que escreveu do irmão, não muito útil para entender sua personalidade, mas de enorme ajuda como revelação do núcleo familiar. Igualmente úteis foram as entrevistas com amigos da família e vizinhos, conduzidas logo após a morte de Van Gogh, além de livros e artigos publicados por acadêmicos ao longo dos anos. Certamente teria sido ótimo conhecer seus irmãos e irmãs como conhecemos os três irmãos de Jackson Pollock.

Os motivos psicológicos para o comportamento excêntrico de Van Gogh parecem mais fortes que os de Pollock, outro biografado seu. O que há de comum entre eles, além da ambição artística?

Eles tinham muito em comum, além da ambição artística. Ambos tinham doenças mentais. Van Gogh sofria de epilepsia do lobo temporal (a mais frequente entre adultos) e Pollock era esquizofrênico fronteiriço. Ambos bebiam muito, e Pollock era mesmo dependente de álcool. Os dois tinham mães frias, distantes, que preferiam os outros filhos. Eles lutaram a vida toda para recuperar o equilíbrio e o amor das mães - e só Pollock teve sucesso na empreitada. Ambos tinham pouca habilidade como pintores acadêmicos. Mesmo assim, criaram um novo tipo de arte, deixando o gênio florescer.

Como você e Gregory White Smith dividiram o trabalho? Parece que a pesquisa ficou a seu cargo e ele entrou com o texto final. Foi mesmo assim?

Trabalhamos juntos há 38 anos. Sua habilidade de escrever com o talento literário de um grande romancista, considerando cada detalhe da história real, ainda me assombra. Todos os dias, nos últimos dez anos, tive o privilégio de ler novas frases que transformaram a triste vida de Van Gogh numa prosa brilhante.

E, pelo jeito, essa biografia não vai ficar só nas palavras. Há um filme em via de ser realizado?

Estou confiante de que um filme será feito a partir dela.

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