Gestus, 20 anos de resistência

Grupo de Araraquara criado por Gilsamara Moura celebra percurso consistente pautado pela dedicação

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

No Brasil, não é muito fácil fazer da dança uma profissão. Tentar isso fora das capitais, é ainda mais difícil. Por essa razão, o fato de o Grupo Gestus (www.grupogestus.com.br), de Araraquara, ter chegado aos 20 anos de um percurso consistente deve ser saudado.

Quando se diz Grupo Gestus, é sobretudo de Gilsamara Moura que se fala, pois com sua dedicação e persistência, tem conseguido fazer a cia. atravessar fases distintas. Em entrevista telefônica ao Estado, ela fala da sua alegria: "Quando se sabe que é necessário enfrentar a instabilidade permanente, as trocas constantes de elenco e a ausência de um olhar para o que acontece no interior de São Paulo, pode-se compreender melhor o significado de termos conseguido nos estabelecer profissionalmente na nossa cidade."

Tudo começou no fim de 1989, quando Francisco Silva, que hoje dirige um grupo na Universidade Federal de São Carlos, foi convidado a dar um curso de balé moderno na Academia de Música e Dança Villa-Lobos. Doze jovens alunos, que estudavam balé clássico, se entusiasmaram tanto com a novidade que ele trazia, que decidiram formar um grupo, na própria escola. A diretora não acolheu a proposta e todos decidiram sair. Sem espaço para ensaiar, ficaram vagando por escolas de variadas naturezas (de modelos, de musculação, etc.) até 1993, quando foram para o endereço que mantêm até hoje, o da escola que Gilsamara fundou.

O nome Gestus surgiu nesse primeiro momento. Já desligados da escola, começaram a convidar os artistas da cidade para colaborar com o grupo. Foi o diretor de teatro Lauro Monteiro quem apresentou Brecht e seu conceito de gesto teatral para eles. Assim nasceu o nome Gestus.

Eram todos muito jovens e imediatamente se ligaram ao grupo de artistas do teatro que havia fundado o movimento Pau de Arara para reivindicar a criação de espaços públicos para a arte. "Durante dois ou três anos, nos apresentávamos somente na rua, pois Araraquara ainda não contava com o seu Teatro Municipal nem com a Casa de Cultura", comenta ela.

Tempos depois, em 2002, esse início seria homenageado com a escolha do nome de Iracema Nogueira, a diretora da escola da qual os 12 jovens se desligaram, para a primeira Escola Municipal de Dança de Araraquara - uma iniciativa de Gilsamara quando presidia a Fundação de Arte e Cultura da cidade.

"Ela foi extremamente importante para nós. Veio de São Paulo e trazia muitos profissionais para contribuir com a construção da dança em Araraquara. Ismael Guiser, Edith Pudelko, Eduardo Sucena, dentre outros, consolidaram na sua escola, que se chamava Academia de Música e Dança Villa-Lobos, uma visão diferenciada da que existia por aqui."

Estudos. Foi em 1995 que o Gestus arriscou, pela primeira vez, abandonar o formato das criações de 10 minutos no qual havia sido formado. Reuniu-se por alguns meses para estudar e descobrir outros caminhos. Com o resultado dessa nova maneira de trabalhar, saiu pela primeira vez do Brasil, para dançar na Argentina e em Cuba. Na mesma época, abandonou os festivais competitivos, diferenciando-se dos outros grupos da cidade.

Há três anos, conseguiu o financiamento, via Lei Rouanet, de uma empresa tradicional da cidade, a Lupo. "É uma conquista expressiva ter uma empresa local ligada a um grupo local", destaca Gilsamara.

Hoje, o Gestus é formado por 15 profissionais, dos quais 2 vêm de Salvador, cidade para a qual Gilsamara mudou em novembro de 2009, quando se tornou professora da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. "Tenho me dedicado a promover intercâmbios do Gestus com o Grupo de Dança Contemporânea da universidade e penso que é chegado o momento também de transformar a escola que fundei em um polo de oficinas e residências para artistas contemporâneos, extinguindo seus cursos permanentes."

Em julho, o grupo iniciou outro projeto, o Gestus Cidadão, que atende 80 jovens entre 8 e 15 anos, que serão 120 em março. Desse total, 30% são filhos de funcionários da Lupo, e os outros 70%, prioritariamente, estudantes da rede pública.

As comemorações dos 20 anos começaram na semana passada, no Sesc Araraquara, e se encerram lá mesmo, no sábado. Às 16 horas, haverá uma palestra sobre economia da dança e, às 20 horas, o espetáculo Sobre Todos Nós seguido de uma conversa com a professora doutora Helena Bastos, da USP.

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