Galeria Soso/Divulgação
Galeria Soso/Divulgação

Gestos de William Kentridge

Mostra exibe seis filmes do sul-africano que une questões sociopolíticas a temas pessoais

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2011 | 00h00

A oposição branco e preto nos desenhos do sul-africano William Kentridge é mais do que uma característica intrínseca do fazer gráfico - de certa forma, inevitavelmente, nos remete à questão do apartheid tão arraigado em seu país natal. Existem muitas outras camadas nas obras desse artista, um dos mais destacados do cenário contemporâneo - principalmente, depois que participou da Documenta de Kassel de 1997 -, mas o veio político de suas criações é o mais proeminente. Ao mesmo tempo, suas animações se transformam em narrativas de um caráter "lúdico" e de uma beleza estética que só fazem encantar o público. Por isso, é uma felicidade ter a oportunidade de ver em São Paulo, até 11 de junho, uma mostra com seis filmes desse grande artista, abrigada no espaço Soso+Cultura.

Os vídeos de Kentridge reunidos na exposição foram realizados entre 1989 e 1996 e pertencem à coleção da Fundação Sindika Dokolo, distribuída parte em Angola, na África, e parte em Bruxelas, na Bélgica. A mostra do sul-africano é marco inicial do programa Transit, que, por três anos, vai exibir em cidades brasileiras recortes de um conjunto de cem obras pertencentes à entidade. O acervo, com 1.600 peças, é centrado em arte contemporânea africana. A Galeria Soso, fundada em 2009 na Avenida São João, é dedicada à produção artística atual da África e por isso é parte fundamental do Transit.

Desenhista. William Kentridge, nascido em 1955 em Johanesburgo, considera-se, antes de tudo, um desenhista. Ele tem uma técnica muito peculiar, a de criar as sequências de suas animações a partir de um único desenho que é modificado, apagado, rasurado. "Usar apenas uma folha e borracha é utilizar a técnica como crítica, como resposta contra o consumismo e os milhares de dólares usados na indústria de filmes", diz Daniel Rangel, responsável pela curadoria da mostra e do programa Transit ao lado do angolano Fernando Alvim.

Já a projeção das obras de Kentridge na Soso tem um caráter especial. Os vídeos são exibidos em sequência em um telão abrigado no amplo espaço cheio de colunas e com pé-direito alto em pleno centro de São Paulo. Na mostra, as obras se referem, diz Rangel, às primeiras experiências de Kentridge com a animação.

Faz parte do conjunto um dos vídeos mais famosos do artista, Felix in Exile (Felix no Exílio), de 1994, obra de nove minutos que trata das angústias de um personagem em uma casa que vai se inundando de água. O trabalho também integra a coleção do MoMA de Nova York.

O curador destaca que as obras de Kentridge tratam de diversos temas dentro de um universo que conjuga preocupações sociopolíticas e questões pessoais (e, por vezes, líricas). Kentridge é um homem branco na África do Sul e em suas animações ele mesmo se coloca, muitas vezes, como personagem em meio a situações de poder e opressão (nos mais amplos sentidos). "Há dois grandes personagens em seus trabalhos, um que representa o capitalista, o dominador europeu; e outro que é uma espécie de alter ego do artista, que trava luta contra aquele opressor pelo cunho de outros valores, como a igualdade", diz Rangel.

A mostra ainda apresenta Johannesburg - 2nd Largest City after Paris (1989); Mine e Monument (ambas de 1990), Sobriety, Obesity & Growing Gold (1991) e Easing the Passing (1996), em que, numa atmosfera nonsense e repleta de ironias, o artista explora a obsoleta ferramenta do paint brush do computador.

No Brasil

Kentridge, que é tema de documentário do brasileiro Alex Gabassi lançado em 2000, já participou de coletivas no País, como a 24ª Bienal de São Paulo (1998) e a 6ª Bienal do Mercosul (2007).

WILLIAM KENTRIDGE

Soso+Cultura. Avenida São João, 284, centro, 3222-3973.

11 h/ 19 h (sáb., 11 h/ 17 h; fecha 2ª e dom.). Grátis. Até 11/6.

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