Gerswhin improvável e iluminado

Dois italianos e uma orquestra alemã fazem registro da Rhapsody in Blue

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2011 | 00h00

Você olha a capa do CD e não acredita: o que estão fazendo ali, ao lado de Gershwin em tamanho maior, a vetusta Orquestra do Gewandhaus de Leipzig e Riccardo Chailly? E o pianista italiano de jazz Stefano Bollani?

Não, a Decca não se enganou. Uma das mais recentes gravações da Rhapsody in Blue - deve ser a milésima, já que só a Amazon contabiliza 987 - reúne esses improváveis parceiros. Lançada na Europa e nos Estados Unidos, tem tudo para se transformar num caso único de encontro inesperadamente iluminado de intérpretes bastante díspares.

Nem tanto. Afinal, o maestro italiano Riccardo Chailly é um ex-baterista de jazz; e Bollani estudou no Conservatório de Florença e cisca bem na arena erudita (em 2007, gravou o Concerto Campestre de Poulenc). O peixe fora d"água seria a Gewandhaus, uma das mais antigas e tradicionais sinfônicas alemãs, que teve entre seus titulares Mendelssohn e uma ilustre linhagem até Kurt Masur. Chailly é seu atual titular, fanático por Mahler e a música do século 20 (poucos sabiam de sua veia jazzística).

Na provavelmente definitiva entre centenas de biografias sobre Gershwin, Howard Pollock desfaz o mito errôneo de que o compositor não era bom em orquestração. O próprio Gershwin repetiu que estudou pouco orquestração, harmonia, análise, teoria musical, etc. Mas isso se deve, segundo Pollock, a seu temperamento. Ele estudou sim, e com gente boa, durante quatro anos, antes de escrever a Rhapsody in Blue, em 1924. E o que é ela senão uma sucessão de "belíssimos temas", na expressão de Bollani? Chailly usa a instrumentação da banda de Paul Whiteman, que a estreou no Aeolian Hall em Nova York, em arranjo de Ferde Grofé. À ginga surpreendente dos músicos de Leipzig soma-se a informalidade de Bollani, que, como Gershwin na estreia, improvisa em vários momentos. O resultado é arrebatador.

O lado erudito de Gershwin fica por conta do Concerto em Fá. Aqui, jura Bollani, ele seguiu a partitura (cá entre nós, seguiu mesmo). E Chailly, na entrevista a três no folheto interno do CD, diz que esse é um típico concerto neoclássico - movimento inaugurado por Stravinski na Europa dos anos 20/30 do século passado. Aqui a Gewandhaus nada de braçada, mas Bollani não faz feio em momento algum.

A suíte sinfônica Caftish Row enfeixa alguns dos mais belos temas de Gershwin, como Summertime da ópera negra Porgy and Bess, e inclui até uma "Fuga", "bem bachiana", no dizer de Chailly. Aqui, maestro e músicos encarnam o autêntico espírito americano da Broadway, e suingam pra valer.

A pérola final fica por conta do ragtime Rialto Ripples, que começa com Bollani solando; a orquestra entra gaiata e bem jopliniana. Três flautas "assobiam" ainda mais gaiatas para dar a música como terminada ("como se dissessem ao público: vocês não acreditaram que tudo isso era a sério, não é?", diz Chailly na entrevista). E, antes de Bollani retomar o solo, Chailly despede-se da orquestra com um "Auf Wiedersehen". Os músicos se retiram do palco e Chailly diz "Ciao, Stefano, io vado". Bollani responde enquanto toca: "Ciao, Riccardo. Ordine un linguine anche per me". Só resta dizer Ciao, Riccardo e Stefano, grazie per questa meravigliosa musica.

RHAPSODY IN BLUE

DECCA CLASSICS

R$ 65

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