Gershwin no labirinto da sala escura

BOM

Crítica: Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2010 | 00h00

Um tipo rústico aponta a espingarda para outro e atira à queima-roupa. O agredido, também um sujeito rude, fica coberto de vermelho e se apalpa em pânico. Parece mortalmente baleado. Quando, porém, a câmara se afasta revela que o tiro apenas espatifou um vidro de geleia de morango na prateleira da pequena sala de madeira de uma estação ferroviária perdida no nada.

A cena está no O Homem da Linha - divertido e ao mesmo tempo sombrio filme holandês de Jos Stellig (fez ainda O Ilusionista) - e tem algo a ver com o clima insólito de Cinema, de Felipe Hirsch e parceiros da Sutil Companhia de Teatro. O absurdo patético é a viga de sustentação desse espetáculo que tangencia vanguardas recentes, polêmicas, naturalmente, e é, no fundo, o flerte contínuo do diretor com o cinema, as artes plásticas (os quadrinhos, a pintura de Edward Hooper) e, agora, a dança.

A ação está concentrada numa plateia de cinema instalada no palco com as poltronas viradas para os espectadores. Os intérpretes olham a tela imaginária sobre nós e o foco da projeção completa a ilusão. Interessante, mas nem de longe é um bicho de sete cabeças. A chamada arte conceitual, as "instalações" há décadas diluíram as provocações. O que se vê é mais um recurso técnico a serviço de uma ideia artística. Os personagens assistem a filmes dos quais se ouve os diálogos originais. Para quem gosta, é um jogo de adivinhações. Se fosse, digamos, uma "obra interativa", o cinéfilo militante poderia sugerir outros títulos mais difíceis.

A graça e certo mistério estão nas reações dos frequentadores (na vida real, só há a idiotia da pipoca e do barulhinho da lata de refrigerante). A atitude de quem não se imagina observado é tema recorrente nas artes e o diferente, neste caso, é o embalo alucinado das atitudes, a virulência possível de cada vulto que se esgueira entre as poltronas da sala semivazia. Patético misturado com "comédia dramática" e/ ou de humor negro até os filmes B de terror. No anonimato, entre as poltronas forradas de plástico circulam sonhadores embevecidos com a fita, malucos, bêbados e casais histéricos em sexo improvisado.

Solidão. O isolamento - não de todos - é um dado concreto (o cinema metáfora da solidão de alguma Mia Farrow em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen). São enfatizadas as situações fisicamente exageradas do elenco treinado por Wilson Sagai, especialista em postura e respiração. Os diálogos ou falas aleatórias, decisivos, estiveram sob orientação de Babaya, professora de canto e técnica vocal.

Os encontrões, quedas, sugestões de ataque ao vizinho e alterações de fala fazem parte do encanto da sala de projeções de Daniela Thomas, cenógrafa que, entre a estética e a eficiência, outra vez acrescenta algo novo à representação com o apoio da iluminação de Luiz Roberto Bruel.

A trajetória de Felipe Hirsch segue a vertente teatral norte-americana e inglesa e a cultura de massa. Em parte, é algo geracional e, em parte, opção. O curioso é que o humor deste espetáculo faz lembrar as encenações franco-argentinas de Jerome Savary e o anárquico Magic Circus (estiveram no Brasil) e Copi (Raul Damonte), dramaturgo e intérprete das delirantes peças O Homossexual ou a Dificuldade de Se Exprimir e Eva Perón (encenada em São Paulo em 1979).

Leveza. O desafio para Hirsch é continuar inventivo no ritmo de trabalho em alta velocidade. Por enquanto, parece seguro e até se dispensa de explicações (está ausente do programa do espetáculo). Quem sabe exista intenções complexas por trás de tudo, mas, pensando bem, a leveza intrínseca do projeto indica uma breve lanterna mágica ao som de George Gershwin.

Numa espécie de fusão de teatro e dança contemporânea, como a de Deborah Colker, Hirsch dirige cuidadosamente um grupo de intérpretes talentosos e jovens - Isabel Wilker, por exemplo - em um bonito jogo sobre coisas engraçadas ou misteriosas no escurinho do cinema.U

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