Germano Mathias volta com seu samba sincopado

Show resgata o tempo da batucada na latinha de graxa nas praças do centro de São Paulo

Francisco Quinteiro Pires, do Estadão,

19 de setembro de 2007 | 20h50

O escritor João Antônio lamentou em Abraçado ao Meu Rancor (1986) a transformação de uma São Paulo de onde desapareceram os sambistas engraxates. Era o conteúdo humanitário da metrópole indo à breca com o avanço do capitalismo selvagem, que trazia um novo estilo de vida. O fio condutor desse lamento era uma pergunta repetitiva: por onde anda Germano Mathias, o sambista que não bate mais na latinha de graxa nem joga a tiririca?   Mas o show que lança nesta quinta, 20, às 21 horas, no Teatro Fecap, em São Paulo, o DVD Ginga no Asfalto (R$ 42,90) responde à questão, ao resgatar o tempo da batucada nas praças do centro, quando atuava o último representante do samba sincopado - o Catedrático do Samba.   "Eu sou o último dos moicanos", diz Germano, de 73 anos, 53 dedicados à música. "Hoje se faz um samba intercalado, o meu é sincronizado." Segundo ele, atualmente a percussão e o canto têm uma cadência desencontrada, diferente do estilo de Germano no qual a divisão rítmica da voz se encaixa simultânea ao andamento da harmonia. Ele se diz influenciado pelo gaúcho Mateus Nunes (1920-1971), Caco Velho - o Sambista Infernal, que, ao brincar com o ritmo do canto, fazia as palavras soarem semelhantes a instrumentos percussivos.   Jorge Costa e Padeirinho foram outros  compositores fundamentais na carreira de Germano Mathias. "O Padeirinho me chamava de o branquelo com nome de alemão." Graças ao sambista da Mangueira, Germano pôde gravar um grande sucesso: A Situação do Escurinho (uma das 16 músicas do DVD), continuação de O Escurinho, de Geraldo Pereira.   Na voz dele, fez fama História de um Valente, de Nelson Cavaquinho, que o confundia com Germano Augusto. "E eu respondia: sou Germano Mathias, com th, h de homem e m de macho" brinca ele.   Essa é uma das histórias que estão no DVD, dirigido por André Rosa e Guilherme Vergueiro. Apesar de receber o mesmo nome do elepê Ginga do Asfalto (1962), este último trabalho tem músicas diferentes - as que foram mais tocadas e renderam dinheiro a Germano, um dos maiores vendedores de discos nos anos 50 e 60.   No show, Germano canta as músicas do DVD acompanhado por Luizinho 7 Cordas, Osvaldinho da Cuíca, Guilherme Vergueiro (piano), Alex Buck (bateria), Odair Marcos (cavaco), Koke (violão), Júnior (percussão), Marcelo Barros (percussão) e Raul Souza (trombone).   É bom esperar a presença da latinha de graxa niquelada, que ele mandou fazer "porque não se encontra mais por aí", da imitação dos sons da cuíca e do trombone que Germano faz com a boca, do samba dançado miudinho pelo sapato lustroso e de muitas Piadas.   Por falar em bom humor, a música que vai fechar a apresentação é Palhaçada (de Habib, José Henrique e Heitor Carillo), que Caco Velho cantava e com a qual Germano gosta de terminar seus shows. Embora cheia de ironia e graça, essa composição se faz um lamento, ao se referir a momentos da vida que se vão sem chance de repetição.   "A palhaçada acabou/ Chegou ao fim/ Reza pra Deus te mandar/ Outro otário igual a mim/ Fui trouxa/ Já dei muita mancada/ Agora acorda trouxa/ O velho sai da jogada/ Já não tem mais palhaçada." O Catedrático do Samba se reconhece o último dos intérpretes do samba sincopado, mas, em vez de chorar com essa constatação, ele ri de si mesmo e, assim, não perde a esperança.   Serviço: Germano Mathias. Teatro Fecap (400 lug.). Avenida Liberdade, 532. Liberdade, (11) 3272-2277. De quinta-feira a sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 10 (5.ª) e R$ 30

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