German lorca, guardião do acaso

Mostra com 120 obras passa em revista 47 anos dedicados à imagem

SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2012 | 07h47

No ano em que completa 90 anos, o fotógrafo German Lorca, abre no MAM uma exposição com 120 obras que, mesmo não sendo uma retrospectiva, abrangem vários momentos de sua trajetória desde 1947. Com o nome Fotografias: Acontece ou Faz Acontecer, a curadora da mostra Daniela Maura Ribeiro brinca com o flagrante e com a encenação, com a produção ou registro do acaso.

A trajetória de Lorca é longa na fotografia. Iniciou no Foto Cine Clube Bandeirante, que ficou conhecido por trazer a modernidade para a fotografia que até a metade dos anos 1940 permanecia presa ao pictorialismo, uma fotografia ainda com forte referência a um academicismo pictórico. Foi no Cine Clube Bandeirante que nomes como Thomaz Farkas, Marcel Giro e Geraldo de Barros iniciaram o experimentalismo, a quebrar fronteiras e trazer uma imagem que brincava o tempo todo com as vanguardas europeias, com o surrealismo, com as técnicas fotográficas. Não foi diferente com German Lorca, que traz para a sua fotografia a contraluz, a cidade, a geometria, que brinca com a metáfora, com as solarizações, com espelhos e com reflexos.

Não à toa se volta também para a fotografia publicitária em que os mesmos elementos são trabalhados. E é aqui que as imagens se confundem, como se brincassem com o espectador, é o jogo da dúvida: foi encenado, representado ou instantâneo de um momento? As estéticas se misturam, um olhar que começa a se educar. Característica, aliás, da época em que a fotografia considerada mais artística se misturava com o registro puro da modernidade. Fruto também de um momento sócio-histórico de uma São Paulo que se modernizava. Tudo era permitido, a experimentação era a base da nova linguagem. Brincadeiras estéticas, jogos de olhares, alusões e citações faziam parte do momento.

Nas fotografias de Lorca selecionadas para esta mostra a dúvida está sempre presente. Nascido no Brás, foi nas ruas do bairro proletário que começou a desenvolver seu olhar. Contador por formação, decide largar um emprego promissor para se aventurar pela fotografia no fim dos anos 1940. Foi o fotógrafo oficial das comemorações do 4.º centenário da cidade de São Paulo.

Tornou-se então um guardião da memória da cidade, registrando lugares que hoje já não existem mais, ou concretizando imaginários como por meio de uma série com guarda-chuvas mostrou a fama da garoa da cidade de São Paulo, fotografando personagens e personalidades. Ainda na ativa, durante estes seus 60 anos de fotografia passeou tranquilamente por vários estilos.

É possível encontrar nessa exposição, portanto, imagens cotidianas, românticas, experimentalismos surrealistas e suas imagens de publicidade, que ele construiu como se fossem trabalhos artísticos. Realidade e ficção se misturam o tempo todo. Como a foto da menina pulando uma poça de água, quanto a de uma pilha de pratos caindo na pia, registro do momento ou produção? Mas não é isso o que importa, mas sim a possibilidade de acompanharmos um desenvolvimento da busca de uma estética própria, de uma linguagem em transformação, em que a narrativa é criada pelo olhar do espectador.

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