Gerchman expõe depois de três décadas

Há quase três décadas Rubens Gerchman não realiza em São Paulo uma mostra relevante como a que inaugura domingo, a partir das 18 horas, na Galeria Ricardo Camargo. Tem po reúne poucas mas significativas obras, realizadas entre 1962 e 2000. Apesar de pontuarem toda a carreira do artista, não se trata de uma retrospectiva e nem mesmo de uma exposição organizada a partir de critérios temporais. "A idéia de cronologia é muito questionável; o tempo para mim é algo mental", afirma ele, acrescentando que pretende de agora em diante, não datar mais seus trabalhos.O próprio título da mostra refere-se tanto à preocupação do artista de lidar com tempos e espaços distintos quanto ao fato de que "faz tempo" que seu trabalho não é visto por aqui. Um dos nomes cruciais da história da arte brasileira da segunda metade deste século, Gerchman é um daqueles artistas sempre lembrados mas cuja obra é pouco mostrada. É bem verdade que, ao longo desses anos, ele voltou à São Paulo várias vezes, participando de eventos coletivos, bienais de São Paulo (atualmente está representado com dois trabalhos na Mostra do Redescobrimento) e realizando algumas mostras individuais, mas nenhuma delas apresentou um panorama amplo de sua produção. No entanto, ele só fala de boca cheia da exposição realizada em 1974 - quando era um jovem recém-chegado dos EUA, onde viveu por cinco anos. Ele próprio procurou Pietro Maria Bardi, mostrou-lhe seu trabalho e conseguiu convencê-lo a montar uma exposição no Masp.PanoramaOs 36 trabalhos compõem um panorama bastante diversificado, que reflete de forma bastante precisa a heterogeneidade do trabalho de Gerchman. "São pitadinhas de minúsculos detalhes, obrinhas não vistas, casas que guardei, algumas coisas que compramos no mercado para complementar a mostra...", conta. A montagem que superpõe diferentes tempos e técnicas estabelece interessantes ecos entre os trabalhos. "Eu trabalho em várias frentes e de maneira atemporal" diz. Lá estão representados os exercícios mais engajados do início da carreira, como Nova Geo-Grafia - Homenagem a Torres Garcia", feito em Nova York, que mostra que a idéia de que o norte fica em cima e o sul, embaixo, é mera invenção dos colonizadores; as pinturas urbanas que recriam cenas da urbanidade violenta do Rio; o SOS, cuja primeira versão foi apresentada em 67; e principalmente os jogos conceituais entre palavra e imagem que perpassam toda sua obra.As diversas caixas de charuto que vêm realizando nos últimos cinco anos ocupam o espaço central da exposição - tanto física quanto simbolicamente. Nestes trabalhos o artista recupera uma série de elementos de sua história. "Nelas construo um mundo em miniatura, retomo meu tempo", diz o artista. Há trabalhos singelos, como A Paisagem Brasileira, formada por um conjunto daqueles pitorescos vidros com cenas feitas de areia colorida, ou rememorações de um passado carregado de emoções como Homenagem aos Amigos Glauber Rocha, Hélio Oiticica e Rubens Gerchman.O autor de Lindonéia - tela que inspirou a Tropicália - também transita sem medo pelas mais distintas linguagens. Ao lado das instalações há sempre um espaço para a pintura. A mais recente delas, a fotografia, também tem lugar garantido na mostra. Ela está presente em várias obras, já que o artista parece ter substituído o tradicional caderno de anotações por uma máquina fotográfica."A memória do homem é lamentável e confusa", diz Gerchman, que transformou essa confusão em uma de suas principais matérias-primas. Não só a memória individual, mas também a coletiva. Em Dupla Personalidade, por exemplo, ele retrabalhou com uma certa nostalgia a trajetória de sua família, da Rússia ao Brasil, e lamenta nunca ter conseguido mostrar essa obra no País.Rubens Gerchman. De segunda a sexta, das 10h às 19h30; sábado, das 11h às 13h30. Ricardo Camargo Galeria. R. Frei Galvão, 121, tel. 211-3879. Até 8/7.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.