Gerald Thomas traz "Deus Ex-Machina" a SP

O atentado de 11 de setembro jáestá incorporado ao mais recente espetáculo do diretor GeraldThomas, Deus Ex-Machina ou Deus Ex-Machina e osSuper-Heróis na Terra Impotente de Viagra Falls, que estréiaamanhã no Sesc Pompéia, em São Paulo, com o elenco da Cia.de Ópera Seca, depois de uma temporada no Rio. "O tema da peçaé a falência do sonho americano através da mitologiasimbolística e imediata da luta do super-herói contra o inimigon.º 1: esse grande simplismo, essa ´naïveté´ americana que chegaa beirar a burrice", diz Thomas.O tema do super-herói há muito perpassava as encenaçõesdo diretor. Ele lembra que o super-homem aparecia numa das cenasda ópera Matogrosso, "um super-homem fraquinho, magrinho eraquítico" e também em M.O.R.T.E, "em que ele empurravauma mulher numa cadeira de rodas, reduzido a uma espécie deoffice-boy de uma inválida". Mas foi só em Deus Ex-Machina,"encenada pela primeira vez em 1996 em Copenhague", com outrotítulo, que o super-homem ou os super-heróis, James Bond tambémé personagem, ganharam o centro da cena.Em Deus Ex-Machina, eles estão todos desempregados efracassados, escondidos num subterrâneo, onde mantêm cativa umaadolescente. Ela é torturada por Louis Lane - a repórterapaixonada pelo Super-homem -, para que dessa forma gritepedindo ajuda. "Sob pressão as pessoas apelam para qualquerfantasia e é só dessa forma que eles ainda podem fazer algumtipo de performance."Mas além dos super-heróis há outro personagem importantena peça, "um índio de olhos azuis expulso de sua tribo porquese interessava por pós-modernismo e contrutivismo, peladodecafonia de Schoenberg e pela música de Wagner". A idéia decriar esse personagem surgiu ainda em Copenhague. "Os atoreseram todos loiros de olhos azuis e achei interessante um delesrepresentar um índio americano." Um índio que tem muito dopróprio Thomas. "Na minha adolescência no Brasil e naInglaterra eu me senti rejeitado pelas coisas que falei",afirma. Julgado por um tribunal de soluços, "muito engraçado",o índio é expulso de sua tribo e vai parar no porão, com osex-super-heróis.No mesmo momento em que colocava no palco o fracasso dossuper-heróis, Thomas assistiu da janela de seu apartamento emNova York, à queda das torres. A interferência desse fato, napeça, não significou um refortalecimento dos super-heróis. Pelocontrário, eles decidem nada fazer, como se estivessem fazendoalguma coisa antes. "No alto de sua arrogância, o herói semprepensa que está fazendo. O final era para ser meio cômico, masacabou trágico."Gerald Thomas lamenta a radicalidade e a bestialidade doato que provocou reação igualmente radical. "Numa guerra somemas sutilezas, tudo vira preto e branco. Fora de um restritocírculo de intelectuais, na qual me incluo, ninguém mais discuteo que está embutido no processo de globalização, a perda deidentidade de certos países, a quantidade de gente relegada àfunção de mão-de-obra barata, a trivialização de todos osvalores. De agora em diante, passa-se a confundir islamismo comfundamentalismo. Vamos viver nos próximos 50 anos num mundo demedo, que dá absoluta razão para o fortalecimento da direita,das ditaduras, da censura interna. E tudo isso ainda serve deestímulo para a ação dos loucos solitários, desses que entram nocinema metralhando todo mundo."Deus Ex-Machina e os Super Ex-Heróis na TerraImpotente de Viagra Falls. Texto e direção Gerald Thomas. Dur.1h15. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 2000. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Até 8/2.

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