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Gerald Thomas busca a síntese dos muitos impasses contemporâneos

'Groucho Marxismo' do autor impede que temas da peça permaneçam sérios

Jefferson Del Rios , Especial para O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2014 | 19h20

Em Entredentes, há sinais da fuligem das Torres Gêmeas de Nova York. O autor e diretor Gerald Thomas estava na cidade e se envolveu com o acontecido, trabalhando como voluntário. Na mesma peça, este artista multicultural, mas nascido e criado no Rio, se mostra totalmente brasileiro, mesmo que eventualmente venha a dizer o contrário. O 11 de setembro e os descalabros na política e na administração do Brasil o levam a uma obra com instantes de indignação.

Em um solo de alta carga emotiva, a bela e vital atriz portuguesa Maria de Lima, falando na prosódia da língua original, faz um protesto contra as mazelas do País que, já nos anos 1600, Gregório de Matos anteviu no poema Triste Bahia.

Nos séculos que se seguiram, esses desvios foram evidenciados em estudos de peso, como Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro. A intervenção da atriz, a melhor parte do texto, resume sociologia e antropologia cultural a respeito do que temos de errado, não por um absurdo étnico-genético, mas razões histórico-econômicas-estruturais precisas. Neste ponto, Gerald Thomas reflete o mundo anglo-saxão em que a ética protestante sugere – e vigia – padrões de seriedade no trato da chamada coisa pública.

Em seguida, a peça retoma o assumido tom cético e zombeteiro de Thomas, mesmo nas menções a conflitos políticos e militares internacionais. Síntese de tantos impasses, a cena apresenta um muçulmano e um judeu diante da parede que simboliza o Muro das Lamentações, em Jerusalém, anexo a uma fachada de favela. O simbolismo é forte, mas o "groucho-marxismo" impede que o assunto permaneça sério. Com outra nuance, quem sabe humor negro, se poderia conciliar a graça com a contundência de Maria de Lima. Enfim, esta é a parte compreensível de Entredentes.

No mais, o espectador entra no labirinto subjetivo que o próprio autor explica: "Eu escrevo para a pessoa, com as idiossincrasias que a pessoa tem. Então, eu vou usar o que o ator ou a atriz tem de melhor e o que tem de pior também. Os jeitos, o fenômeno que ela é, a maravilha que ela é, mas também o seu lado negro".

No caso, felizmente, temos o lado caloroso, autoirônico e a leve melancolia do notável ator Ney Latorraca em parceria com Edi Botelho, intérprete amadurecido que junta bem os estilhaços da prosa de Gerald Thomas. Ney não procura se impor, embora tenha claramente a plateia ao seu lado. Faz até mesmo um certo ar distraído de quem está ali para representar o que lhe vier à cabeça, embora tudo esteja calculado. Desde seu tempo de Escola de Arte Dramática, diverte os amigos com o número de "receber o santo". Ele traz de volta, divertidíssimo, estas "entidades". Falando de si, dentro do personagem e vice-versa, Ney poderia ter como cenário o edifício de seis andares onde morou na Rua Barão de Campinas, em São Paulo. Nestas sequências, o teatro de Gerald Thomas se outorga um toque de zombaria que pode ser levado a sério ou como pura derrisão.

O problema está nos desequilíbrios entre opostos. Em tese, o objetivo é "aprisionar o espírito do tempo, tecnologia, fundamentalismo, geopolítica", etc., etc. Paradoxo de um estilo que aproxima a alta criatividade com a vontade de épater, seja pela citação de Wittgenstein, Deleuze ou referências sexuais pesadas. Um jogo no qual tudo pode acabar em aparência e palavras, palavras.

Fica-se a meio caminho entre Beckett, que exerce fascínio sobre o diretor, e o grupo francês Magic Circus de Jerome Savary (1942-2013), que incorporava a ópera, histórias em quadrinhos e Molière. Gerald Thomas tem mais a dizer dos males da sua terra natal e daquela onde reside (Estados Unidos) ou sobre impasses contemporâneos como, por exemplo, a "banalização do bem", visível na transformação do progresso tecnológico, a internet, em toxicodependência cognitiva (síndrome de abstinência virtual, os smartphones como extensão do próprio corpo), na definição do professor Júlio Groppa Aquino, da Faculdade de Educação da USP.

De qualquer modo, à exceção das escatologias gratuitas, é interessante observar em Entredentes um quadro de insolências e ambiguidades por um elenco inteligente, que tem à frente o sempre bem-vindo Ney Latorraca.

ENTREDENTES

Sesc Consolação. Teatro Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 7/R$ 35. Até 11/5.

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