Gerações que se completam

Projeto de Minas valoriza e oxigena a música brasileira

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

A Apoteose do Conexão Vivo, em quatro noites no Parque Municipal de Belo Horizonte, promoveu encontros marcantes de novas bandas com convidados veteranos e reafirmou a força do projeto na formação de público. O ambiente dos shows no parque - com dois palcos, barracas de comes e bebes e feira de discos - ficou com a lotação máxima em pelo menos duas noites (quarta e sábado) e manteve um bom nível de público nas outras. Ontem, a programação mais voltada para a música instrumental começou de manhã e terminaria no fim da tarde reunindo músicos tarimbados como Pereira da Viola, Nivaldo Ornelas, Juarez Moreira, Diego Figueiredo, entre outros, além do paulistano Barbatuques.

Entre os encontros, o que resultou mais completo foi o do escolado violonista, cantor e compositor Gilvan de Oliveira com o músico Armandinho. A conexão de Minas com Bahia se estendeu por mais da metade do show em que ambos exercitaram a capacidade de improviso por um amplo espectro de ritmos, fundindo coco com música clássica espanhola e popular mexicana, samba com maracatu, choro com frevo, rock com latinidade.

Outros encontros que deram bom caldo foram os da banda Porcas Borboletas, de Uberlândia, com o titã Paulo Miklos; do promissor Lucas Avelar com o craque Affonsinho; o de Vitor Santana com Marcos Suzano e Pedro Sá; o da banda de samba Zé da Guiomar com o lendário carioca Wilson das Neves; o do Capim Seco (outro grupo de samba) com o pernambucano Siba; e da Graveola e o Lixo Polifônico com Jards Macalé, que foi ovacionado pelos fãs da banda, com uma reverência surpreendente. O pernambucano Di Melo também causou forte impressão na participação do show da banda Black Sonora.

O carismático rapper Renegado recebeu Aline Calixto, Cubanito (da Black Sonora) e Maria Alcina. E encerrou a programação em grande estilo, misturando rap, sambalanço, reggae, raggamuffin, com milhares de fãs cantando em coro êxitos como Do Oiapoque a Nova York e Sei Quem Tá Comigo. Outro bom show de hip hop foi o do grupo Julgamento, que recebeu Nathy Faria e o frenético Marku Ribas. Com sua refinada banda, Marku fez um dos melhores shows do evento na quarta-feira. Com sua suingada colagem sonora, a Graveola jogou todas as fichas em repertório novo, com resultado além da expectativa. Foi um grande show, que culminou com a participação de Macalé.

Esta foi uma das partes mais interessantes da programação de shows, porque a reunião dos novatos com ícones de outras gerações (que, tanto de um lado como de outro, não estão no mainstream) não foi em nenhum caso por conveniência, modismo ou como pretexto para chamar público. Mas casando afinidades e reforçando para uma plateia jovem, bem informada e interessada em novidades de seus artistas prediletos.

O Conexão Vivo nasceu em Belo Horizonte e em cerca de 10 anos se alastrou por outras regiões do País, consolidado como um dos mais importantes programas de incentivo da cadeia produtiva da música do circuito independente, seja na produção de discos, na circulação de shows ou na formação de público.

Fluxo contínuo. Além de referendar as bandas e artistas locais, entre ascendentes e consagrados, o evento surpreende por trazer figuras esquecidas como o compositor e instrumentista Elísio Pascoal, irmão de Hermeto, que tocou com Flávio José, e vive num abrigo da prefeitura. Outra figura que brilhou em vários shows foi o baterista Neném. Além deles, três cantores/compositores vindos de São Paulo, Tulipa Ruiz, Karina Buhr e Marcelo Jeneci, saíram consagrados pelo público mineiro, favorecidos pela repercussão nas redes sociais. Por dia 1.500 dos que se cadastraram via SMS pela operadora que patrocina o evento entram de graça, até uma certa hora - um estímulo para que as primeiras bandas (menos conhecidas) a se apresentar também tenham público. E isso dá resultado.

"Usamos dez canais diferentes, entre eles Facebook, Twitter e YouTube, além de aplicativos para celular", diz Israel do Vale, diretor de conteúdo online e offline. Uma das novidades que mais cativaram o público, aliás, foi tuitar frases que eram projetadas nos telões durante os shows. "O Conexão Vivo não é um festival, é um projeto que está na rua o tempo todo e é bancado por uma parte da grana de todos os projetos patrocinados que a gente tem aqui. Além dos shows no Parque Municipal, ocupamos outros sete espaços em BH e temos o que a gente chama de fluxo contínuo." O show não para. Em agosto o Conexão vai de novo a Salvador.

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