Geração #

Aos 6 anos, já pede de presente cartas Pokémon e um iPhone 11

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

22 de fevereiro de 2020 | 03h00

Meu filho Joaquim, de 6 anos, me perguntou passeando pelas ruas do bairro, num domingo ensolarado: “Pai, por que as pessoas se cansam de viver?”. Acendeu um alerta máximo no meu cérebro. Parei, abracei, beijei sua testa muitas vezes e perguntei de onde ele tirou aquilo. “Ué, você que me disse.”

Pesquei as conversas recentes armazenadas na memória sem a fluidez da infância. Memória gasta como um sapato velho. Até me lembrar. É, eu tinha dito, quando ele comentou, semanas antes, que queria viver mil anos, e falei que viver muito era chato, que seria melhor descansar, que morrer é parte do processo, que todos morrem, e é bom, as pessoas se cansam de viver muito, ficam muito doentes quando envelhecem. Até 100 anos dá. Mais que isso, será que vale a pena?

Por que, de uma hora pra outra, ele trouxe o assunto à tona. Os pais de hoje, depois do casamento demoníaco da internet com o telefone, que deu nas redes sociais, que deu na confusão entre real e digital, na sedução hipnótica das telas que cabem no bolso, estamos em alerta máximo. 

Ele afirma que quer um celular. Eu afirmo que só sobre o meu cadáver. Ele afirma que fulaninho e beltraninha têm. Eu afirmo que os pais Fulanão e Beltronona são dois imbecis, que não sabem o que é bom para os filhos, e trocaram a boa brincadeira, o livrinho infantil, pela opção fácil da babá digital smartphone.

Os pais de hoje vivem um estresse antecipado do como será o futuro da geração que nasceu millennial, depois de 1997, sob o signo das redes sociais, a Geração Z: 70% convivem com ansiedade e depressão, 55% com bullying virtual, 50% com vício de drogas, 45% com alcoolismo, 30% com gravidez na adolescência, enumerou a The Economist.

Casam-se mais tarde. Começam a vida sexual mais tarde. São menos ligados a comunidades religiosas. Ficam tempo de mais em redes sociais. A metade deles já largou emprego por conta de doença mental, o familiar Burnout. São conclusões de um conglomerado de institutos de pesquisa e organismos: Organização Mundial da Saúde, Blue Cross Blue Shield Health Index, Mind Share Partners, SAP e Qualtrics.

De acordo com BDA - Morneau Shepell, um em cada cinco millennials sofria de depressão nos EUA em 2015. A OMC alertou em 2016: o suicídio é a segunda principal causa de morte de jovens americanos entre os 15 e os 29 anos. No Brasil, o suicídio é a quarta maior causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos. 

Competição no trabalho, a busca incessante pelo like, ansiedade, pânico, “fear of missing out” (Fomo), ou seja, medo de estar por fora, dificuldade de se tornar “adulting” (de crescer), são frutos de uma sociedade carente e hiperconectada; precisam ser aceitos, curtidos, incríveis.

Nas escolas que dizem formar futuros líderes e empreendedores, alunos ganham tablets na matrícula. Nas da minha bolha, tablets e celulares não entram. Estamos perdidos, sem dados, sem rumo. Logicamente, que as empresas mais ricas do mundo, envolvidas na hiperconexão, não nos dão respostas às dúvidas que as novas tecnologias suscitam. 

Já ouvimos dizer que o vício pelo like, assim como as cores das telas, é como o de uma droga estimulante. Sabemos que bebida, cigarro, drogas na infância e adolescência devem ser banidas. Não sabemos nada sobre as quatro telas. Para piorar, estamos cercados por elas.

Não existem carreiras de cocaína ou um copo de uísque on the rocks em cada sala de espera de médico, hospitais, na mesinha da poltrona do avião, nos táxis, em bares e restaurantes, nos aeroportos, rodoviárias, trens e metrô. E em todos eles, é proibido fumar. Mas existem telas, são mágicas, sedutoras e liberadas. Na mão da maioria das pessoas sentada, um celular. 

Como dizer a uma criança que aquilo faz mal. Elas estão nos bolsos de cada um, nas mãos, mesas, bolsas. Meu filho adquiriu uma habilidade “pickpocketiana” de afanar meu celular carregando, guardado, ou aparelhos de primos, babás, amigos, para mergulhar fascinado naquele universo em que ele é proibido de entrar.

Sabe operar como poucos, baixar o que quiser, e onde está o segredo. E já pede de presente cartas Pokémon e um iPhone 11. Se ignoramos, pede dinheiro, sabe o preço do aparelho e onde tem promoções. Estamos fritos. E eles, então...

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