Georgia guerra-peixe

Ela é carioca, frequentou a mangueira na infância, mora em São Paulo há 19 anos e resgata suas memórias no primeiro filme

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Apesar do nome, O Samba Que Mora em Mim não é um filme sobre samba, mas sobre quem mora na Mangueira. Como a ideia nasceu?

Das minhas memórias. Meu pai não é sambista, mas foi diretor cultural da Mangueira por 21 anos. É sua grande paixão. Eu sempre o acompanhei. Minhas memórias de infância estão sempre ligadas ao tempo em que ia com ele à quadra da escola. Só que chegou um momento em que precisava procurar o meu tempo, minhas memórias.

Essa busca pessoal foi decisiva no momento de começar o filme em primeira pessoa?

Foi. O filme não começava assim. Estava quase pronto quando a roteirista Ticha Godoy me disse que faltava algo que dissesse ao espectador o porquê de fazer o filme. E mandei textos que tinha escrito no início do projeto. Ela disse: "Achei o que estava procurando. Você tem de narrar este texto no início. Tem de se colocar no filme."

E você gostou da ideia?

Congelei de medo. Fiquei dias sem falar com a Ticha. Ela me ligava e eu não atendia. Não é fácil se expor. Apesar do filme ter um tom pessoal, afinal é um passeio meu pelo Morro da Mangueira que vai além da quadra de samba, hesitei em me colocar em foco. Mas ela estava certa. Não estou em cena, mas minha presença, ainda que discreta, é que dá o tom ao filme.

É como se você levasse o espectador para um passeio.

Exato! Era desde sempre minha intenção. Queria passar pelas pessoas, conversar com elas, ouvir, ir além do convencional. Não queria falar de violência. Não há nenhuma cena sobre isso. Nem mostrar o carnaval de sempre. Queria subir o morro, o que meu pai nunca fez, e descobrir o samba que mora em mim e nas pessoas comuns, mas muito especiais. O personagem principal é o morro.

Ser uma ''diretora'' contribuiu para a sutileza como a câmera se move por esse morro?

Sim. Para que a câmera não perturbasse o dia a dia da comunidade, tudo era muito discreto. Optei por uma iluminação suave, por uma steadycam para que o movimento fosse o mais suave possível. Diante do meu olhar feminino, e do da câmera, tudo passa naturalmente. Este é um documentário-poema. Então, tudo é nesse tom, o do carinho.

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