Geometria lírica das fachadas

Série encantadora de fotografias das casinhas coloridas do sertão nordestino brasileiro, feita por Anna Mariani, está de volta em nova exposição em São Paulo e em relançamento de livro

Maria Hirszman, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2010 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Algumas obras de arte parecem se esquivar de qualquer esforço de definição e síntese, dando conta sozinhas de se comunicar com o observador. Esse parece ser o caso das fotografias das fachadas e platibandas caiadas do sertão nordestino brasileiro feitas por Anna Mariani, em exposição no espaço do Instituto Moreira Salles, da Praça Buenos Aires.

A mostra traz apenas um pequeno recorte dessa produção, que totaliza cerca de 2 mil imagens, realizadas em mais de 100 cidades de sete Estados brasileiros ao longo de duas décadas. E serve de base para o relançamento do livro Pinturas e Platibandas, em edição revista pela autora.

Lançado por ocasião da primeira aparição pública desse trabalho, na XIX Bienal de São Paulo (1987), o livro preserva o mesmo poder de reverberação e encanto, mas passou por algumas pequenas, porém significativas mudanças. Além da substituição de algumas imagens, de forma a flexibilizar o recorte sempre fechado nas fachadas e deixar "a paisagem entrar", o texto de Lina Bo Bardi saiu para dar lugar a reflexões de caráter mais poético de Caetano Veloso e Jean Baudrillard. Porém, a sucessão dessas "pinturas" ? termo usado pelos próprios moradores para chamar as decorações das fachadas de suas casas ? ao longo das páginas continua obedecendo regras fixas de escala, enquadramento e alinhamento das imagens a partir da linha de encontro entre a fachada e a calçada precária ou o chão de terra, amplificando a coerência do conjunto e criando uma espécie de narrativa visual. É como se a sequência "se assemelhasse ao desenrolar de um novelo", explica a fotógrafa.

Trabalhando quase sempre com séries, como as que dedicou às paisagens do sertão e a uma releitura fotográfica do olhar de Frans Post, Anna Mariani diz ter vontade um dia de exibir seus trabalhos como uma sucessão de imagens projetadas. Tal ênfase no caráter serial e no desdobramento das fotografias no tempo e no espaço terá de aguardar um lento trabalho de digitalização, que vem sendo realizado em paralelo a outras atividades, como o trabalho à frente da Neojibá, programa social de formação jovens músicos na Bahia.

Se autodefinindo como uma "obsessiva caótica", Anna afirma que a série das fachadas, que já percorreu diversos países, como França e a Alemanha, só foi mostrada agora graças a persistência do crítico Rodrigo Naves. Ele também conseguiu convencê-la a recortar ainda mais a seleção, já que todas as suas exibições até o momento tinham um mínimo de 100 fotos, e ampliar os tamanhos. Além de fornecer a oportunidade, sempre adiada, de reeditar o livro.

Elo perdido. O critério de seleção adotado pelo curador, Naves, foi a busca de uma diversidade capaz de mostrar tanto a riqueza dessa produção como sua importância como uma espécie de "elo perdido da arte brasileira". Em sintonia com outras poéticas que se alimentaram do universo popular, como Volpi e Tarsila, suas fotografias "não confirmam teses nem trazem promessas de uma arte autóctone", mas exalam essa poética própria da cultura popular brasileira. "As fotografias de Anna Mariani recolhem essas experiências praticamente sem julgá-las. Vem daí o tom amoroso delas", conclui.

Esse encantamento com as casinhas coloridas, com as múltiplas variações de platibandas, com essa "lírica geometria", como define Caetano, acompanha Anna desde criança. Depois de aprender a arte de fotografar, com mestres como Maureen Bisiliat, e dedicar-se ao requinte das nuances do preto e branco, ela começou a fazer os primeiros registros das casas caiadas. Primeiro na Bahia. Depois o raio se ampliou, com o esquadrinhamento do sertão de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Norte.

Não se trata, como destaca Baudrillard, de um exercício frio de virtuose fotográfica, nem tampouco de um olhar distante, pautado pelo rigor cientificista da antropologia. Trata-se, pura e simplesmente, como diz a autora, de "um registro fotográfico de um tema, num tempo e num espaço que eu tive a sorte de conhecer".

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