Geometria em questão

Mostra coloca em rico paralelo obras de Antonio Lizárraga e Paulo Roberto Leal

Maria Hirszman, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

A exposição Geometria do Espaço Infinito, no Centro Cultural São Paulo, coloca em diálogo um leque amplo de obras de Antonio Lizárraga (1924-2009) e Paulo Roberto Leal (1946-1991), fazendo oportuna homenagem a esses dois importantes artistas ao mesmo tempo em que contribui para mostrar que a força do pensamento abstrato no Brasil é muito mais extensa do que costumam afirmar os manuais. Trata-se da primeira vez que a obra de Lizárraga é mostrada ao público desde sua morte. No caso de Leal o resgate é ainda mais importante, já que sua obra é praticamente desconhecida pelo público de São Paulo. Os dois artistas nunca mantiveram contato; pertencem a gerações, cidades e circuitos distintos. Tampouco há uma relação direta entre seus trabalhos. E, no entanto, têm em comum o questionamento rico, problematizador e bem humorado da abstração geométrica.

Segundo o curador José Augusto Ribeiro, a mostra pode ser pensada como uma espécie de dueto, no qual as singularidades de cada um são respeitadas. "São realizações muito inventivas, que tiveram uma ressonância pública muito aquém de sua importância", sintetiza. Para iluminar a presença de um espírito comum sem encobrir as soluções e caminhos individuais, a mostra propõe um percurso bem aberto, no qual se dá um permanente confronto entre as duas produções.

Com alguns trabalhos pontuais, realizados na década de 70, a seleção concentra-se sobretudo na década de 80, quando Leal manteve forte interlocução com a geração que despontava como um fenômeno de renovação da arte brasileira - ele foi um dos três curadores responsáveis pela mostra Como vai você, Geração 80? - e ao mesmo tempo dedicou-se a rever de forma questionadora o legado construtivo da geração que o antecedeu, evidenciando um grande diálogo com a produção neoconcreta. Sua produção é marcada pela experimentação de materiais (como papel e tecido), procedimentos e formas construtivas (como a mescla entre pintura e costura, entre bidimensionalidade e tridimensionalidade), mas sobretudo pelo que Ribeiro define como a procura de "um elo entre construtivismo e liberdade criativa". É recorrente o uso por Leal de títulos que remetam à paisagem carioca, explorando essa fronteira entre o caráter abstrato da construção e a possibilidade de figuração de uma paisagem por meio de formas geométricas, como nas pinturas Palmeira Imperial e Corcovado.

Os anos 80 também são determinantes no caso de Lizárraga, já que o mergulho no abstracionismo geométrico radical se dá depois de ele sofrer um acidente vascular cerebral, em 1983, e ficar tetraplégico. Passa então a explorar formas e cores para desestabilizar a percepção do espectador, investigando o projeto construtivista de um outro ponto de vista, desconstruindo preceitos e solapando certezas. Combina nas pinturas que projeta - já que está impossibilitado ele próprio de executá-las - cores cada vez mais dissonantes e sedutoras (como exemplificam duas telas inéditas) com equilíbrios geométricos instáveis.

Como que subvertendo a lógica esquemática, os dois artistas mostram que o construtivismo não se encerra em meados do século 20, nem tampouco se constrói apenas sobre certezas formais e utopias construtivas, mas se prolonga e interage com amplo raio de questões. E resgatam a potencialidade poética das formas puras ao investigar não o que têm de seguro, mas de problemático; não sua estabilidade, mas as dúvidas que elas suscitam.

ANTONIO LIZÁRRAGA E PAULO ROBERTO LEAL 2ª MOSTRA DO PROGRAMA DE EXPOSIÇÕES 2011

CCSP. Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, 3397-4002. 10h às 20h (sáb. e dom., 10h às 18h; fecha 2ª). Grátis

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