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'Geografia é destino, digo sempre, como Napoleão'

O senhor costuma dizer que  se sente mais indiano que etíope, apesar de ter nascido em Adis Abeba. O que é para o senhor ser indiano e que tipo de identificação tem com escritores contemporâneos indianos como Amitav Ghosh, Vikas Swarup e Aravind Adinga?

12 Abril 2011 | 06h00

Nasci em Adis Abeba e vivo nos EUA, mas sou filho de indianos e o ambiente familiar em que fui criado era totalmente indiano. Não me identifico com Salman Rushdie, mas conheço e admiro os outros escritores que você citou. No entanto, minhas influências literárias são autores como o nigeriano Chinua Achebe e o egípcio Naguib Mahfuz, um dos meus favoritos, pela capacidade de contar histórias envolventes. Espero que venha a ser como ele.

A história da literatura está repleta de escritores médicos, de Chekhov a Oliver Sacks, mas poucos são os autores que descrevem suas atividades profissionais em detalhes como o senhor faz em O 11º Mandamento. O livro foi originalmente concebido como um texto não ficcional?

Não, ele foi concebido como um romance. Persiste uma certa visão romântica que as pessoas têm da medicina e a ficção é um bom meio de revelar a verdade. Há, claro, ressonâncias de minha experiência pessoal como médico, mas nada autobiográfico, exceto por um ou outro personagem que conheci na vida real.

Imagino que a freira grávida de gêmeos em O 11º Mandamento seja um desses casos. O senhor conhecia freiras quando vivia na Etiópia? O que o fez criar uma freira fascinada pelo êxtase de santa Teresa D’Avila?

Conheci, de fato, uma freira. Sempre fui fascinado pela figura dessas mulheres que usam hábito e se retiram do mundo e ainda mais intrigado pelo êxtase da santa Teresa de Bernini, de apelo muito sensual.

Em todos os seus livros as descrições da linguagem do corpo como tradutora das aflições da alma são, de modo invariável, a melhor parte desses textos. Em The Tennis Partner, a história verdadeira de sua amizade com um médico residente, dependente de drogas e que morreu em consequência do vício, causou comoção. Como é sua relação com os pacientes e por que suas histórias exigem tantos cenários?

Geografia, em meus livros, é quase um personagem. Acredito, como Napoleão, que geografia é destino. Como vivi migrando de um país para outro, parece natural que o deslocamento dos meus personagens seja igualmente constante. Quanto à capacidade de "ler" o corpo de um paciente, sou um médico à antiga, que toca no doente e não acredita apenas naquilo que vê no computador. Isso faz toda a diferença. Não sou contra a tecnologia, mas não vejo razões para expor meus pacientes à radicação mais do que o necessário. / A.G.F.

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