Geografia amorosa passa pelo país

A poeta americana viveu aqui seus dias mais felizes e também os mais infelizes, e criticou as mazelas nacionais

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2011 | 00h00

Elizabeth Bishop publicou apenas uma centena de poemas em vida, mas deixou 3 mil cartas que são quase literárias, reveladoras da personalidade dessa mulher pensativa, melancólica, tímida e bastante rígida com os amigos, a ponto de criticar o poeta - também americano - Robert Lowell quando este publicou um livro (The Dolphin, 1973) em que reciclou cartas da ex-mulher Elizabeth Hardwick. A amizade quase terminou ali. "É cruel usar cartas em que as pessoas expõem suas angústias", justificou. De fato, nem mesmo em sua literatura Elizabeth Bishop explorou temas que considerava íntimos, como sua relação com as mulheres. Não queria ser julgada por sua orientação sexual, mas pela construção rigorosa de seus poemas que, de resto, parecem simples.

Por trás dessa simplicidade existe, porém, a necessidade de entender uma geografia íntima refletida na paisagem do mundo, o que explica a ânsia de Elizabeth Bishop buscar um porto seguro. Sem mãe, internada a vida toda num asilo psiquiátrico, ou pai, que morreu quando Bishop tinha 8 meses, Elizabeth foi criada pelos avós numa fazenda da Nova Escócia. Tudo o que queria era respirar novos ares e curar a asma crônica. Intuiu que sua salvação seria cruzar oceanos. Foi assim que parou acidentalmente no Brasil, país com o qual desenvolveu uma relação conflituosa desde que desembarcou no porto de Santos, em 1951, celebrado no poema Arrival in Santos - celebrado não é bem a palavra, pois nele a poeta reclama até da má qualidade da cola usada no selo do cartão-postal, crítica que se estende até o último poema sobre o Brasil, Cadela Rosada (Pink Dog, 1979), que ataca o hábito policial brasileiro de exterminar mendigos, vagabundos, drogados e alcoólatras.

Elizabeth Bishop se inseria na última categoria. Certo dia, chegou a tomar água de colônia quando acabou a bebida. Contribuiu para isso a última fase do turbulento caso amoroso que manteve durante 15 anos com Lota de Macedo Soares, paisagista e arquiteta autodidata carioca, responsável pelo desenho do Parque do Flamengo, que morreu de uma superdosagem de tranquilizantes no verão de 1967. Com ela, Elizabeth viveu os anos mais felizes e os mais infelizes de sua vida. Não serão seus poemas a revelar essa relação, embora seja possível detectar em Questions of Travel (1965) uma referência autobiográfica do tempo em que viveu com Lota na casa construída pela última em Petrópolis. Nele, ela revela seu ambivalente sentimento sobre o Brasil - terra acolhedora, mas exótica e, portanto, atemorizante.

Nascida em Worcester, Massachusetts, em 8 de fevereiro de 1911, Elizabeth Bishop já tinha um livro publicado quando chegou ao Brasil, aos 40 anos, North and South (1946), premiado com o Pulitzer. Robert Lowell escreveu uma resenha favorável. Viraram amigos. North and South resume o que viria a ser o tema central dos outros livros da poeta, inclusive o último, Geography III, que ganhou o Book Critic"s Circle Award em 1977: a relação entre o ser e a paisagem que o cerca, a força que a geografia tem de mudar as relações humanas. No caso particular da fazenda Samambaia, em Petrópolis, a casa de aço e vidro foi tão decisiva para a felicidade de Elizabeth e Lotta quanto o casarão de Ouro Preto foi para a infelicidade da dupla (a poeta imaginava reconstruir a relação na antiga construção barroca, reformada por ela). Desiludida, Elizabeth voltou para os EUA e ainda tentou uma segunda chance com Alice Methfessel, que seria a curadora de sua obra após a morte, provocada por um aneurisma cerebral em 1979.

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