Genuína arte brasileira invade Miami

Pela sexta vez, Mary Luft consegue realizar o Fla Bra, um importante projeto que desenvolve em Miami. Trata-se de um evento que dura um mês e apresenta várias formas de arte brasileira, todas ligadas pelo compromisso em pesquisar, instigar e fazer pensar. Quando se lembra que o Fla Bra acontece na aridez intelecutal de Miami, e que privilegia a produção de artistas brasileiros e inovadores nas suas áreas, a sua relevância cresce ainda mais. Este ano, a curadoria de Mary Luft mistura dança, teatro (adulto, infantil e de bonecos), artes plásticas, performance, vídeo e música. O VI Fla Bra (que significa Florida/Brasil) começou dia 13 de outubro, com a montagem de um roteiro escrito e dirigido por Elifas Andreatto, com os estudantes da Faculdade New World School of the Arts. E se encerra esta semana, com dois programas de dança no Colony Theatre, em Miami Beach, acompanhados por uma performance e uma mesa redonda no MoCA (Museum of Contemporary Arts).Nos dias 9 e 11, às 20h, Marcelo Braga dança Três Meninas e um Guri, o solo que o coreógrafo carioca João Saldanha criou em homenagem a seu pai, o jornalista e esportista de quem carrega o nome. O solo começa com uma entrevista em vídeo do famoso ex- técnico da seleção brasileira, cuja morte completou dez anos no ano passado - data marcada pela estréia desta obra, que trouxe a Marcelo Braga o Prêmio RioArte de Melhor Bailarino de 1999. O programa se completa com Dog Dog, espetáculo de Giovani Luquini, brasileiro radicado em Miami, em associação com o videoartista novaiorquino Benton C. Bainbridge, numa performance livre com um vídeo imaginário ao vivo em homenagem à divindades africanas de cães, que recebeu o apoio da fifty over fifty.O segundo programa, a ser mostrado nos dias 10, às 20h, e 12, às 19h, traz Demetrius Klein, o mais laureado dos participantes do Ocean Dance Project recém-realizado por Baryshnikov. Desta vez, ele dança um solo, Four Love Songs and a Madrigal, acompanhado pelo violonista acústico Constantinos Jaferis e pela soprano Noree Boyed, e patrocinado pela National Endowment for the Arts. Coreografia para Ouvir, o mais recente trabalho de Henrique Rodovalho com sua companhia de dança, a excelente Quasar, compõe os dois programas. E nos dias 9, 10 e 11, o intervalo dos espetáculos é ocupado com o resultado de um outro tipo de trabalho desenvolvido por Giovani Luquini, que atua também como professor residente em duas escolas primárias: West Homestead e Rainbow Park. Trata-se do segundo ano deste projeto, realizado graças à associação entre Tigertail, a empresa responsável pela realização do Fla Bra, e o Miami-Dade County Public Schools. No MoCA, em três sessões no dia 11 (às 11h30, às 13h e às 15h) e em mais duas no dia seguinte (às 13h e às 15h), a sempre talentosa intérprete e criadora Vera Sala realiza Troca de Pele, que apresentou na Galeria Nara Roesler, acompanhada pelo excelente Caito Marcondes, na vernissage de 1999 das esculturas de Ricardo Ribenboim que, além de artista de competências plurais, também comanda o Itaú Cultural, instituto em que realiza uma das mais importantes gestões de administração cultural em curso no Brasil. Desta vez, Vera Sala, será acompanhada pelo músico e compositor Alfredo Triff. Depois da segunda performance, Vera Sala e Alfredo Triff se reúnem, no próximo sábado, às 13h30, a Ricardo Ribenboim e Christine Greiner, pesquisadora de dança, autora de dois importantes livros sobre o assunto e coordenadora do Curso de Graduação Comunicação e Artes do Corpo da PUC-SP, numa mesa-redonda sobre o tema "Comparações sobre o que há de "novo" nas culturas latino-americanas e do sul da Flórida". O VI Fla Bra já mostrou também Angela Dip em Por Água Abaixo, comédia baseada nos pensamentos de Annie Taylor que, aos 63 anos, em 1901, desceu as Cataratas do Niagará num barril, e Tão Feliz e O Cozinheiro, do Grupo Caixa de Imagem, aquele que distribui poesia e encantamento a cada uma das suas supercaprichadas invenções. Em música, o show deste ano ficou a cargo do MPB-4. Leilão - Caracterizando a singularidade deste evento, que reúne mais de 25 acontecimentos e 50 artistas, e cujo objetivo é promover o intercâmbio entre a arte brasileira e o sul da Flórida, houve um leilão beneficente de itens relacionados apenas a comida transformado em performance com a apresentação de Freeding Frenzy - uma composição do músico nova-iorquino Fast Forward para quatro instrumentistas, quatro garçons, quatro chefs e mais o público que aceitou comer - acompanhada pelo vídeo Prophet, de Charles Recher. Em artes visuais as opções são o site-instalação de Albano Afonso (www.locusproject.com), uma colagem de Robert Flynn no Aeroporto Internacional de Miami, e mais Sandra Cinto, Nazareth Pacheco e Beatriz Milhazes na Mia Gallery.Não há outro festival internacional tão engajado na promoção da arte contemporânea brasileira. Este VI Fla Bra confirma a sintonia fina de Mary Luft como curadora e ressalta a importância da continuidade da sua ação como uma espécie de uma antenada embaixadora cultural informal em Miami.

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