Gente (quase) como a gente

Uma febre de documentários inunda as telas dos Estados Unidos de atrações que retratam celebridades das mais diversas áreas de atuação

Laura M. Holson, The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2010 | 00h00

Mike Tyson na fita. Puglista em desgraça faz um filme para a era da internet

 

 

Recentemente, foram lançados nos Estados Unidos mais de dez documentários ou que deverão ser distribuídos nos próximos meses, todos sobre pessoas famosas e alguns deles encomendados pelos próprios astros. Esses filmes mostram, entre outros, cabeleireiros famosos (Halston, Vidal Sassoon), comediantes (Joan Rivers), realizadores (Roger Corman), músicos (Rush, The Doors), magnatas da imprensa (Hugh Hefner) e políticos em desgraça (Jack Abramoff, Eliot Spitzer).

Anteriormente, as celebridades costumavam fugir do documentário por considerá-lo pouco importante. Além disso, esses filmes raramente dão lucro. Mas com o interesse despertado no ano passado por The September Issue (que falava de Anna Wintour, não é mesmo?), e os filmes destinados a melhorar a imagem do poderoso produtor Robert Evans ou do pugilista caído em desgraça Mike Tyson, algumas delas começaram a aderir ao gênero como uma espécie de editorial visual para a era da internet.

Agora, com Twitter, Facebook e TMZ, está mais difícil para as celebridades manipularem sua persona pública. Um documentário favorável pode ser o primeiro passo para a reabilitação de uma reputação chamuscada (ver Tyson ou de Spitzer) ou no caso de Vidal Sassoon ou Rush, para lembrar aos espectadores a importância cultural de um ícone já na velhice.

"Joan Rivers dizia que não conseguia trabalho, e que as pessoas contavam piadas a seu respeito", observou Jane Rosenthal, uma fundadora do Festival de Cinema Tribeca. "Agora, de repente, elas voltaram a falar de Joan Rivers."

Alguns filmes, como o do cantor Billy Joel (que registrou seu concerto no Shea Stadium, em 2008, antes que essa sede dos Mets fosse demolida), são financiados pelo próprio astro. Outros, como os comentados documentários sobre Rivers ou Spitzer, foram financiados independentemente, mas filmados com a cooperação dos personagens.

Ninguém pode culpá-los por quererem manifestar a própria opinião. A fome de mexericos sobre celebridades pode ser uma desgraça, particularmente em uma idade em que cada tropeço bêbado pode ser captado digitalmente. Não surpreende, portanto, que as celebridades estejam dispostas a serem entrevistadas sobre sua vida particular, mesmo que isso implique deixar de ter a supervisão prévia de suas declarações. "As pessoas querem detalhes verdadeiros e reais, ou pelo menos por aquilo que é apresentado como verdadeiro e real", segundo James Toback, que dirigiu Tyson. "Os filmes biográficos de pessoas reais são uma extensão natural desse fenômeno."

Alex Gibney é um veterano diretor que dirigiu Enron: The Smartest Guys in the Room (Enron: os caras mais espertos da sala), filme indicado para o Oscar, e, mais recentemente, o documentário sobre Eliot Spitzer, sem título, exibido no festival Tribeca este ano. O novo filme é uma crônica da renúncia ao cargo do ex-governador de Nova York depois da revelação de que ele tinha um caso com uma prostituta. "Minha situação com Eliot foi difícil", lembrou Gibney. "Fomos falar com ele e dissemos: Vamos fazer este filme com ou sem a sua cooperação." Gibney e Spitzer tiveram várias conversas antes que o ex-governador concordasse em participar. "Para Eliot, foi um risco calculado", comentou Gibney. "Mas ao falar de si mesmo, ele teve uma oportunidade de influenciar, embora não tivesse a supervisão de um editor."

De certo modo, reconheceu o realizador, a franqueza de Spitzer afetou o tom do filme. "Quando você fala com alguém, cara a cara, tende a se sentir mais solidário", afirmou. 

 

* Tradução Anna Capovilla

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