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Gente estranha

O bom ator é tomado pelos deuses do teatro, pelos espíritos de todas as épocas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2019 | 02h00

Minha escola fazia muitas encenações, geralmente sacras. Fui Arcanjo Gabriel mais de uma vez nas peças durante o Advento. No primeiro e único auto natalino que escrevi para a paróquia na qual eu trabalhava, fui um Lúcifer convincente tentando demover o enviado da ideia da Anunciação. 

Ainda criança, minha avó me levou para um grupo popular, Teatro Teleco, para assistir a Marcelino Pão e Vinho, lacrimosa peça de fundo moral e religioso. Adorei. 

O teatro, em sentido mais amplo, viria na adolescência, quando fui com minha irmã a Porto Alegre ver a peça Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, interpretada pela grande Bibi Ferreira. A filha de Procópio fez uma Joana de arrepiar. Eu conhecia Eurípedes da escola e aquela releitura me pareceu genial. 

Na televisão, em outras épocas, acompanhei a série Aplauso na Rede Globo, que me apresentou a Nelson Rodrigues e a Guimarães Rosa. Lembro-me também de Ziembinski fazendo O Capote, de Gógol. Nunca encontrei referência na internet e pode ser que eu tenha inventado essa memória. Fui ler o texto depois e dali cheguei ao mundo russo. Até hoje, considero um dos melhores contos de todos os tempos. O Capote muda a vida do leitor. 

Já adulto, o teatro se tornou parte da minha existência. Como professor, encenei Shakespeare e Molière algumas vezes com alunos secundaristas ou universitários. Meu doutorado girou em torno de teatro catequético no Brasil e no México do século 16. E, claro, naveguei ao redor de Hamlet como o “barco embriagado” de Rimbaud. 

E, como a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum, acabei conhecendo muitos atores, diretores e pessoal de teatro. Convivi com as trupes idiossincráticas nas coxias, na minha casa, em restaurantes e como plateia. 

Zé Celso disse ao jornal, certa feita, que a classe média teria inveja da vida lúbrica dos atores. Vendo as peças dele, tinha a sensação de que tudo ali era uma orgia permanente, e a ideia, claro, tinha algo de assustador e sedutor no seu contraponto ao universo moral e religioso que houvera sido imposto ao mundo de Dionísio. Observando as muitas montagens de Antunes Filho, tinha outra sensação: ali era um exercício de evisceração das entranhas. Com Gabriel Villela, admirei o mundo do lúdico, visual e do belo como expressão de algo circense e de recuperação da beleza. Seu Romeu e Julieta foi inesquecível. Eduardo Tolentino me ensinou o teatro de repertório, sistemático e muito criativo, com o grupo Tapa. Levei muitos alunos ao prédio da Aliança Francesa. Há tantos outros e a lista seria interminável. Começo com os quatro citados, ferindo tantos narcisos. Inevitável...

Encontro gente de gerações muito distintas no mundo dos artistas. Do jovem Vitor Fadul ao experiente Sergio Mamberti; das sutilezas femininas da minha amiga Maria Fernanda Cândido à força masculina de Rodrigo Lombardi; da precisão objetiva de Rainer Cadete à densidade nua de Clarice Niskier: o espectro é vasto. Amo os casais amigos: Lázaro Ramos e Taís Araújo; Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli e tantos outros. Frequento a casa de alguns, saio junto com outros, convido-os aos meus saraus e assisto a suas peças. 

Artistas não são normais, no sentido estrito do termo. Quase todos invertem o dia pela noite. Quase todos, especialmente os novos, têm poucos recursos financeiros. Todos elogiam muito os colegas em público e alguns, bem poucos, após algumas garrafas, contraem o cenho e dizem: fulana é um pouco difícil. Todos usam o ingresso “Cacilda Becker” (free). Manda a etiqueta teatral que o mimo deve ser retribuído indo ao camarim, convidando para a sua própria peça depois e publicando algo nas redes sociais. Muitos desconfiam dos críticos teatrais. Alguns, para minha surpresa absoluta há alguns anos, são muito tímidos e resolvem essa contratura atuando. Parece uma contradição em termos, mas também encontrei comediantes tristes e até deprimidos. 

Artistas de palco e de câmera têm notável sensação de holofote. Não é uma vaidade específica, pois todas as funções (professores, advogados, empresários, etc.) são tomadas por gente que gosta da centralidade das luzes. Seria muito mais uma capacidade de atuar também em um jantar, não como uma falsidade pequeno-burguesa clássica, mas como o fingidor do poema de Fernando Pessoa: “Que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Seria muito mais uma estetização do mundo, um mundo de gestos e entonações, treinado como o olhar do pintor ou o corpo do atleta. 

Por fim, conversando longamente com um artista de verdade, poucas coisas parecem muito distintas de outras pessoas. Diria até que, no primeiro frigir de ovos, existe o ser humano padrão como eu que escrevo e você que lê. Porém, quando vejo aquela mesma pessoa que compartilhou de vinho na minha casa vivendo no palco um grande papel, parece que um condor alçou voo e abriu suas asas imensas sobre a planície do mundo comum. Ocorre um fenômeno, uma metamorfose, um fato único que o eleva e o possui. O bom ator é tomado pelos deuses do teatro, pelos espíritos de todas as épocas e de tudo que foge ao nosso mundo vil. Depois, exaustos e suados, eu os encontro no camarim, ainda exauridos como um cavalo que incorporou um Orixá, mas de volta ao mundo imanente no plano dos mortais. É uma magia e muito especial. Admiro do fundo do coração e me sinto especial em poder testemunhar. Onde está o talento? Qual a fibra ou molécula? Não sei, mas é algo impactante, arrepiante e que só resta, a nós, gente comum, testemunhar agradecidos. Aqui minha homenagem aos muitos atores que iluminam minha existência com arte. Bom domingo para todos.

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