Gente comum, com pitada de Ford e de comédia italiana

Eles estavam todos em Cancún, no México, participando do Sony Summer, o verão da Sony, o evento com que a distribuidora norte-americana apresenta os destaques de sua produção anual. Na maioria das vezes, esses destaques são comerciais - filmes que são apostas de bilheteria, não necessariamente, ou nem um pouco, aqueles que agradam aos críticos. Salt, Resident Evil 4. Na sexta-feira que vem, estreia Comer, Rezar, Amar, com Julia Roberts. Hoje é a vez de Gente Grande. Adam Sandler, Kevin James, Chris Rock, Rob Schneider e David Spade são os cinco amigos que integravam o time de basquete da escola.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

Eram jovens e promissores. O tempo passou e eles agora se reencontram no enterro do antigo técnico. Seguiram rumos diversos na vida - há o que deu muito certo, o mais ou menos, o hippie, o fracassado. As mulheres vão da sexy Salma Hayek - e ela também estava em Cancún, deslumbrante - até a velhusca Maya Rudolph, que Salma, de forma um tanto desastrada, toma como mãe de Rob Schneider. O diretor é Dennis Dugan.

"Gente Grande é um filme que fizemos para nos divertir", Sandler disse na coletiva. "Mas se conseguirmos fazer com que as pessoas pensem um pouco no que é importante em suas vidas acho que diversão poderá adquirir um outro sentido, quem sabe mais profundo." Como toda comédia estrelada pelos amigos Sandler e Rob Schneider, Gente Grande tem piadas chulas, linguajar grosseiro. Os personagens são broncos, mas, no final, algo se produz. Eles participam de uma gincana. Enfrentam o mesmo time do passado, formado por homens maduros cujas vidas não são muito melhores que as deles - aliás, são piores, porque esse quinteto irreverente tem pelo menos a amizade, as famílias. O lance final é fordiano - a glória dos derrotados, John Ford.

Não havia muita coisa para se aproveitar na coletiva, que foi uma troca de piadas entre os integrantes da mesa. A própria Salma, casada com um bilionário, parecia muito à vontade entre esses adultos infantilizados, ou entre essas crianças grandes que se recusam a amadurecer. Qual é a surpresa? Salma integrou-se à gangue de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. OK, Tarantino é muito melhor do que todos reunidos - e amanhã Bastardos Inglórios desembarca na TV paga, no Telecine Premium, às 22 horas, para que você possa confirmar (de novo) como ele pode ser bom.

Além do lance fordiano, Gente Grande permite uma ponte com a grande tradição da comédia italiana. Quinteto Irreverente, da série Meus Caros Amigos, de Mario Monicelli, com certeza, mas também outro filme que não é exatamente uma "comédia", mas tem humor, e muito. Gente Grande remete a Os Boas Vidas (I Vitelloni), o primeiro Federico Fellini a obter reconhecimento em festivais - o de Veneza, em 1953. Houve, a propósito, uma festa de Gente Grande em Cancún. Entrou pela madrugada. Salma Hayek, com um vestido justíssimo - realçando o seio forte e o bumbum redondo -, dançou até se acabar.

Na saída, ao pegar o elevador, o repórter teve a sorte de encontrar David Spade, um tanto tocado pelo excesso de margueritas. A pergunta era inevitável - ele conhecia Quinteto Irreverente e Os Boas Vidas? Gente Grande, de alguma forma, homenageia a comédia italiana? Ele foi sincero - "Não sou a pessoa mais indicada para lhe falar. Não conheço nada de cinema europeu. Mas é possível que sim. Rob Schneider se liga muito em comédias italianas. Adam (Sandler) e ele ficam se lembrando no set e morrem de rir." Não é, portanto, despropositado, pensar em Gente Grande como um parente distante de Os Boas Vidas. Distante e mais vulgar? A culpa talvez não seja de Rob Schneider nem de Adam Sandler, mas do mundo que espelham na tela.

Trailer. Veja trechos de Gente Grande

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.