Genialidade que chega à estratosfera

O trânsito caótico e a chuva pesada não impediram o bom público de comparecer, anteontem, ao Teatro Cultura Artística Itaim, para assistir ao segundo concerto da série Música de Câmara Temporada 2012 da Sociedade de Cultura Artística. Ainda bem, porque a noite foi especial.

O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2012 | 04h22

O programa, bem engendrado, entremeou música vocal e instrumental italiana do século 18. Remontou o clima de uma "accademia" típica daquela era, quando as pessoas se reuniam para fazer poesia, debater filosofia, estética e arte. Esses encontros aconteciam nos palácios de nobres. As cantatas para voz solo e contínuo - em geral combinando ária, recitativo e ária final - ilustravam os temas das discussões. Um desses mecenas foi o cardeal Ottoboni, contemporâneo exato de Antonio Vivaldi e veneziano como ele. Sobrinho-neto do Papa Alexandre VIII, fundou a Accademia degli Arcadi, frequentada por músicos como Corelli e Alessandro Scarlatti, pai de Domenico, que assina as sonatas para cravo tocadas no concerto.

Na ótima conversa inicial com o público, Nicolau de Figueiredo enfatizou o caráter declamatório do canto barroco. Citou a bela frase de Monteverdi, de "vestir" com música as palavras. O texto deve ser inteligível para quem ouve. Por isso, deveria haver tradução para o português (um volante trouxe os textos em italiano). O programa iniciou-se com uma das mais célebres canções de Monteverdi, "Si Dolc'è'l Tormento".

A soprano Artemisa Repa possui bela voz, de timbre adocicado, e boa técnica. Falta-lhe, entretanto, a chama que Nicolau de Figueiredo exibe pilotando o cravo. Pode até alcançar nível semelhante a médio prazo. Mas, atualmente, o desnível é evidente. Ela ainda não possui a expressividade necessária a este tipo de música.

Daí os dois níveis bastante distintos do concerto. De um lado, performances apenas corretas de canções de Barbara Strozzi, Bernardo Storace e Giovanni Felice Sances. Nas duas cantatas ("Indarno Cerca la Tortorella" e "Par Che Tardo"), a elevação do nível de performance deveu-se mais à presença do violoncelo de Alberto Kanji. Como disse Figueiredo, Vivaldi escreveu praticamente uma outra linha melódica principal para o instrumento que contracena com a voz de modo delicioso.

Os dois 'intermezzi" instrumentais levaram o concerto à estratosfera. Virtuose excepcional, Nicolau de Figueiredo mostrou, em cinco sonatas de Domenico Scarlatti, que é um dos mais talentosos especialistas neste instrumento em termos mundiais. Dono de uma articulação impecável, seus dedos percorrem o teclado com a facilidade dos que possuem intimidade rara com o instrumento.

Antes de tocar o segundo bloco de sonatas, ele acariciou o tampo do cravo, confidenciou ao público que o instrumento é quase um ser vivo, feito de madeira e engrenagens superdelicadas, sofre com a luz e variações de tempo. Dito isso, sacou de uma ferramenta para reafinar uma nota aguda.

Na performance, mudando registros, alterou dinâmicas. Acentuou fraseados, enfatizou as notas repetidas tão a gosto do compositor. Ao tocar, mostrou uma teatralidade visual bastante próxima da do pianista moderno. Talvez esta seja a razão pela qual transmitiu integralmente o intenso brilhantismo, refinamento e sagacidade de uma música que Domenico chamou de "essercizi", mas merece ser chamada de obra-prima. Suas centenas de sonatas em movimento único nos encantam até hoje. Os pianistas costumam usá-las como extras em recitais (Horowitz as adorava). Figueiredo nos mostra que não é necessário um piano moderno para mostrar a genialidade delas.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.