Genet e o enigma da criação

No dia 19 de dezembro de 2010 comemorou-se o centenário de nascimento de Jean Genet, falecido em 1986. Por ser universalmente festivo, dezembro inibe reinações não previstas pelo calendário religioso e pelos balanços do ano. O notável e polêmico escritor francês teve o nome armazenado no freezer da história literária. Sua obra é vasta, complexa e de exegese difícil. Fascinante, caminha em ritmo transgressor pelo romance e a autobiografia, pelo teatro e o cinema. Em vez de peneirar farinha, açúcar e fermento para bater o bolo jovial do centenário, por que não festejar escritor e obra com um discreto e amigável sanduíche misto quente?

Silvano Santiago, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

Comentarei o imprevisível e notável livrinho em que Genet narra suas visitas ao ateliê do escultor Giacometti (L"Atelier d"Alberto Giacometti, com fotos de Ernest Scheidegger, 1958). No domínio da crítica de arte, o livrinho é peça tão especial quanto, no campo da crítica literária, as cartas trocadas entre os poetas Mário de Andrade e Carlos Drummond, hoje reunidas no volume Carlos & Mário. Os valores nobres do convívio humano são postos à prova. Sobressaem os sentimentos de simpatia e amizade, colocados acima da rivalidade e da emulação. A troca de experiências embasa o exercício da crítica. Por ter seu work in progress apreciado por olhos privilegiados, o criador se interroga sobre a própria criação. Todos lucram: o artista, o amigo e o leitor.

Os dois gêneros de visita são semelhantes a um terceiro. Lembro-me das flâneries de André Breton, acompanhado do infalível Giacometti, pelo recinto do Marché aux Puces, em Paris. Poeta e escultor brincam de chicotinho-queimado com o Acaso. Os fados farão chegar às suas mãos algum objeto usado e insólito (ready-made), que participará do processo de criação. Em Amour Fou (1937), a ser lido ao lado dos dois livros citados, Breton narra a caminhada aleatória dele e de Giacometti pelos brechós parisienses e comenta: "O elo de simpatia que une dois ou vários artistas parece que ajuda a encontrar soluções que cada um, de per si, procuraria em vão".

No texto de Genet, Giacometti é homem alegre e afável, que se confunde com o chão de terra batida, onde pisa, e a terra cinza, em que molda a peça. "Como ficaria feliz o escultor, se pudesse reduzir-se a pó, a poeira!" Todo o ateliê é cinzento. Sua esposa, Annette, recebe ordem para não limpar a sujeira das vidraças. A pele enrugada do rosto sorri. Sorriem os olhos, também a testa plissada. Riem-lhe os dentes centrais espaçados e também cinzentos. Coça a cabeça cinzenta, desgrenhada. Arregaça as calças cinzentas caídas sobre os sapatos. De repente, um corte brusco no convívio amigável. Genet observa: "Dois segundos atrás, Giacometti sorria, mas eis que suas mãos tocaram uma estátua em busca de forma. Em meio minuto, ele está por inteiro na passagem que une os dedos à argila. Já não lhe interesso". O escultor embute a afabilidade e a alegria na solidão escavada e, dominado por elas, focaliza "a ferida, que é única na origem de toda obra de arte". A ferida, escondida ou visível, guardada e preservada pelos homens dentro de si, nela o artista se refugia ao trocar a vida social pela solidão temporária, mas profunda. Conclui Genet: "A arte de Giacometti parece querer revelar a ferida secreta dos seres e das coisas, para que seres e coisas sejam iluminados por ela".

Genet esclarece: "A solidão não significa, para mim, condição miserável, mas soberania secreta, nem incomunicabilidade profunda, mas conhecimento mais ou menos obscuro de singularidade irrefutável". A solidão não é miserabilismo. Frente à escultura de mulher, os olhos do escritor se desviam e sua mão se projeta sozinha à caça de descobertas palpáveis: pescoço, cabeça, nuca, ombros... Fecha os olhos e toca o ombro. Custa-lhe descrever o bem-estar da mão, confessa. Sensações variadas confluem para a ponta dos dedos. Alguém forte os guia e os apazigua. Continua: "Meus dedos refazem o percurso feito pelos dedos de Giacometti, mas enquanto os dele procuravam apoio no gesso úmido ou na argila, os meus determinam seu andar pelo caminhar único dos dedos dele". A mão vive; a mão vê. "Giacometti, ou o escultor para cegos" - Genet decifra o enigma da criação. Não são os olhos de Giacometti, são suas mãos que fabricam os objetos, as figuras humanas. Ele não sonha a escultura. Sente-a com o tato.

As mãos do escultor, o gesso e a marcha à ré anunciada pelas labaredas de fogo, eis o que ficará subentendido no diálogo seguinte. Giacometti pergunta a Genet: "Se vazadas em bronze, essas esculturas em gesso perderiam?". Responde ele: "Não. Não perderiam em nada". O escultor insiste: "E ganhar, acha que ganhariam?". Genet hesita. E não hesita mais: "Eu não diria que as esculturas ganham e, sim, que o bronze ganhou. Pela primeira vez na vida, o bronze acaba de ganhar. As suas mulheres são uma vitória" - continua Genet com receio de levar bronca - "do bronze. Sobre o próprio bronze, talvez". Meses depois, ao almoçar com Jean-Paul Sartre, Genet repete-lhe a fórmula encontrada para explicar o sumiço dos dedos do artista e do gesso no fogo que funde o bronze. Sartre o consola. O achado crítico foi um presente dado ao escultor. E arremata, lembrando-se talvez das escapadas de Giacometti pelo Marché aux Puces em busca do readymade: "O sonho de Giacometti seria sumir-se completamente detrás da obra. Ficaria ainda mais feliz se o bronze é que tivesse se manifestado por si mesmo".

Giacometti confidencia. Outrora tinha tido a ideia de esculpir uma figura e de enterrá-la. Não a descobririam, ou só a descobririam bem mais tarde, quando o próprio escultor tivesse desaparecido e não perdurasse a lembrança do seu nome. No entanto, ao entrar no ateliê, Genet observa que todo ele vibra e vive. Anota: "Basta a presença de Giacometti para que, sem que as toque, as esculturas já acabadas se alterem e se transformem só porque uma das irmãs está sendo trabalhada". Sustentado por madeira carunchada, precário e sujo, o pavilhão pode desabar a qualquer hora. Mas o ambiente está tomado pela realidade absoluta. "Quando saio do ateliê e caminho pela rua", escreve Genet, "dou-me conta de que nada que me rodeia é verdadeiro."

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