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Generosidade x justiça

Quantos CEOs de Wall Street foram para a prisão?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2018 | 02h00

Pergunta para a gincana do décimo aniversário do crash da bolsa de Nova York: Quantos CEOs de Wall Street foram para a prisão? Ganha uma torradeira elétrica quem respondeu “zero.” O aniversário do colapso da bolsa que precipitou a Grande Recessão foi amplamente registrado, tanto pelo que o mundo aprendeu com a irresponsabilidade criminosa da elite política e econômica, quanto pelo que a mesma elite tem feito para enfraquecer as defesas do sistema contra um novo desastre. 

Num suplemento especial de domingo marcando a data, o New York Times reservou a última página para a pergunta acima e respondeu com a folha em branco. Mas o autor de um best-seller recém lançado nos EUA tem uma explicação mais complicada. A impunidade espantosa dos demolidores da economia passa pela caridade. Anand Gridharadas escreveu Winners Take All: The Elite Charade of Changing the World (Vencedores Levam Tudo: A Charada da Elite sobre Mudar o Mundo) depois de extensa experiência no circuito da virtude dos afluentes. O ex-colunista do Times é palestrante e beneficiário do que batizou de Consenso de Aspen, numa referência ao Aspen Institute, a rica fundação que promove ideias baseadas em valores humanísticos. O consenso cunhado por Gridharadas pode ser resumido em duas frases. “Os vencedores da nossa era devem ser desfiados a fazer mais o bem. Mas nunca diga a eles para fazer menos mal.”

Neste aniversário do crash, o autor se debruçou sobre troca de mensagens e doações de grandes bancos de Wall Street, além de ricos investidores. Examinou as penalidades pagas por instituições. E concluiu: “O duro fato sobre a crise financeira, nestes dez anos, é que, em retrospecto, foi um bom negócio para os que a causaram.” O livro rendeu ao autor uma redução de convites para galas e jantares beneficentes. Mas, além de leitura obrigatória para qualquer empreendedor social, está sendo consumido vorazmente pelos que não convidam Gridharadas para sua mesa.

Vencedores Levam Tudo é um meticuloso trabalho de reportagem que acompanha diversos protagonistas da elite que quer mudar o mundo. O autor faz entrevista na limusine do diretor da Ford Foundation; acompanha Bill Clinton e sua Iniciativa Global; embarca num luxuoso cruzeiro de doadores festejando sua generosidade.

Uma cegueira do chamado terceiro setor, é confundir generosidade com justiça. Os que contribuíram para desempregar 11 milhões estão entre os mais generosos doadores de hospitais, museus, universidades e de iniciativas de combate à pobreza. Mas a injustiça social só aumentou na última década. Ao sair do vermelho, a economia americana “desdistribuiu” os ganhos. Hoje 10% da humanidade detêm 90% da riqueza do planeta.

Clichês como “responsabilidade social”, “devolver à sociedade” abundam nas consultorias em que jovens idealistas colocam seus M.B.A.s a serviço dos desfavorecidos. Toda esta bolha de pensamento virtuoso ignora o elefante na sala: corporações que cresceram graças à sua irresponsabilidade social sequestraram o debate do bom mocismo planetário. Fabricantes da junk food que é responsável pela epidemia de obesidade infantil são doadoras de programas de nutrição.

Jeff Bezos, o fundador da Amazon, com seus US$150 bilhões, o homem mais rico do mundo, respondeu à reputação de sovinas doando US$ 2 bilhões para escolas e para combater o crescimento dos sem teto. A população de homeless no norte da Califórnia explodiu em boa parte porque executivos do Vale do Silício que fazem lobby contra impostos provocaram um inflação habitacional darwiniana.

Estamos sob a ilusão da mudança social privatizada, o que nada tem a ver com combater estatismo. Democracia, instituições públicas bem geridas e sem interesse transacional é que podem ser agentes de mudança.

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